Posso afastar-me sem te diminuir
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| A humanidade na fenda do diálogo |
Reconhecer que uma conversa nos faz mal exige atenção ao que sentimos. Concluir que o outro é incapaz de compreender exige uma certeza que raramente possuímos. Entre estas duas atitudes, decide-se muito da nossa humanidade. [José Paulo Santos]
Uma velha lenda budista, preservada no Akkosa Sutta (discurso budista do Cânone Páli onde o Buda ensina como lidar com insultos e raiva), conta que um brâmane se aproximou do Buda e o cobriu de insultos. Em vez de responder com a mesma hostilidade, o Buda perguntou-lhe se costumava receber convidados e oferecer-lhes alimentos. O homem respondeu afirmativamente. E, quando os convidados não aceitavam a comida, a quem pertencia ela? A quem a tinha oferecido, reconheceu o brâmane. O Buda recorreu então a essa imagem para explicar que não aceitava participar na troca de insultos. A narrativa prossegue com uma transformação: o homem que chegara disposto a ofender acaba por escutar e pede para se tornar seu discípulo.
Podemos ler esta história como um convite a interromper a circulação da agressividade. Há, porém, um pormenor que merece a nossa demora: quem começa por insultar conserva a possibilidade de compreender. O seu comportamento não encerra tudo o que aquela pessoa é, nem determina, por si só, tudo o que poderá vir a ser.
Transportada para as nossas vidas, esta possibilidade coloca-nos perante uma exigência delicada. Como nos protegemos de uma conversa que nos magoa sem transformar o nosso sofrimento numa sentença sobre quem está à nossa frente?
O instante em que uma pessoa se transforma num rótulo
Há conversas das quais saímos com o corpo inteiro em sobressalto. A mandíbula permanece contraída, repetimos mentalmente o que dissemos e ensaiamos, já sozinhos, a resposta que teria colocado tudo no devido lugar. Durante o jantar, no duche ou antes de adormecer, o diálogo continua dentro de nós, embora o interlocutor tenha partido há muito. Nestas circunstâncias, reconhecer o desgaste e interromper a conversa pode ser um gesto necessário de cuidado.
A dificuldade surge quando acrescentamos a esse reconhecimento uma conclusão definitiva: “É incapaz de compreender.” O que começou por ser uma experiência concreta, “fui interrompido, senti-me desconsiderado, não consegui fazer-me ouvir”, transforma-se numa definição da pessoa inteira. A nossa dor passa a funcionar como prova da insuficiência do outro.
Esta passagem é sedutora, porque simplifica o mundo. Se o problema reside inteiramente na incapacidade alheia, ficamos dispensados de interrogar a nossa linguagem, as condições do encontro e a possibilidade de também termos deixado de escutar. Podemos abandonar a conversa levando connosco, além do cansaço, a satisfação discreta de nos julgarmos mais lúcidos. O ego aprecia estas pequenas condecorações, sobretudo quando é ele próprio a organizar a cerimónia.
Acontece que alguém pode compreender o que dizemos e continuar a discordar. Pode reconhecer os nossos argumentos sem lhes atribuir o mesmo peso. Pode até identificar uma fragilidade que nos custa admitir. Quando confundimos compreensão com concordância, qualquer resistência parece confirmar a falta de inteligência ou de maturidade do interlocutor. Entretanto, deixamos de reparar na exigência que lhe estamos a fazer: para provar que sabe escutar, terá de pensar como nós.
A escuta também precisa de condições
Nenhum de nós chega a uma conversa inteiramente disponível. Levamos o dia que tivemos, o receio de sermos julgados, a necessidade de preservar uma imagem de nós próprios. Por vezes, uma observação sobre um comportamento é recebida como uma condenação da identidade. Ouvimos “isto magoou-me” e começamos imediatamente a defender-nos de uma acusação que traduzimos, por dentro, como “és uma pessoa má”.
É possível que o mesmo aconteça do outro lado. Esta hipótese não desculpa a agressão nem nos obriga a tolerá-la; convida-nos a ser mais rigorosos naquilo que afirmamos saber. “Neste momento, não estamos a conseguir ouvir-nos” descreve uma dificuldade situada. “Contigo é impossível conversar” estende essa dificuldade a todos os momentos futuros.
A Comunicação Não Violenta pede-nos esta atenção ao modo como o nosso olhar se fecha. Antes de procurarmos palavras mais delicadas, importa reconhecer o que já decidimos sobre a pessoa a quem vamos dirigi-las. Uma frase impecavelmente serena pode transportar um julgamento implacável, e há uma condescendência particularmente dolorosa na voz de quem se considera emocionalmente mais evoluído.
Por isso, a pergunta sobre a disponibilidade do outro para escutar precisa de regressar também a nós. Ainda consigo interessar-me pelo que ele está a tentar dizer? Conseguiria reformular a sua posição de uma maneira que ele reconhecesse como justa? Existe alguma coisa que eu esteja disposto a rever? Sem esta reciprocidade, a escuta corre o risco de se tornar uma qualidade que exigimos aos outros enquanto preparamos a nossa próxima intervenção.
Um limite não precisa de uma condenação
Imaginemos uma conversa em que as interrupções se repetem, o tom sobe e aparecem comentários humilhantes. Podemos dizer: “Quando sou interrompido e ouço esses comentários, fico demasiado tenso para continuar. Vou parar por aqui.” Se houver condições e vontade, podemos acrescentar um pedido para retomar o assunto noutra altura.
Este limite tem consistência porque assenta no que está a acontecer e na decisão que tomamos perante isso. Dispensa uma avaliação da inteligência, do caráter ou do futuro do interlocutor. Não precisamos de provar que alguém é irremediavelmente incapaz de dialogar para termos o direito de sair de uma conversa.
Também não temos de prometer um regresso. Há relações marcadas por humilhações repetidas, intimidação ou desrespeito persistente, nas quais o afastamento pode precisar de ser duradouro. A dignidade de quem agride não anula a dignidade de quem é atingido, e reconhecer a possibilidade de mudança não nos obriga a permanecer disponíveis à espera dela.
Seria injusto transformar a narrativa budista numa exigência de serenidade dirigida a quem sofre. As palavras ferem, mesmo quando não respondemos; ninguém fracassa moralmente por ficar abalado. A história oferece uma imagem para pensarmos a nossa resposta, não uma medida com que julgar a resistência das pessoas à dor.
Podemos desejar que alguém encontre outra forma de se relacionar e, ao mesmo tempo, decidir que não voltará a fazê-lo à custa de nós. Há uma firmeza profundamente humana nesta posição, porque protege sem precisar de desumanizar.
O incómodo que nos protege e o incómodo que nos transforma
Convém, contudo, olhar com cuidado para a expressão “esta conversa faz-me mal”. Uma conversa pode ferir-nos por conter desprezo; outra pode inquietar-nos por trazer uma verdade que evitávamos. A sensação de desconforto, por si só, não esclarece toda a diferença.
Um amigo que nos chama a atenção para uma injustiça, um filho que nos conta como se sentiu perante uma decisão nossa ou alguém que recusa continuar a aceitar um comportamento podem perturbar a nossa tranquilidade. Essa perturbação merece ser escutada. Se fizermos da paz interior a ausência de qualquer confronto, acabaremos por reservar o direito à palavra apenas a quem nos confirma.
Precisamos, portanto, de alguma honestidade para distinguir o que está em causa: estou a ser humilhado ou estou a ser contrariado? A minha dignidade está a ser atacada ou a imagem que tenho de mim está a ser interrogada? Nem sempre conseguiremos responder no momento. Uma pausa pode ajudar-nos a perceber se precisamos de proteção, de reparar um dano que causámos ou simplesmente de aprender a permanecer numa diferença.
É aqui que a maturidade perde o brilho das frases fáceis e ganha a espessura da vida. Exige-nos discernimento, admite hesitações e obriga-nos a reconhecer que também nós podemos ser a pessoa que, naquela tarde, não está preparada para ouvir.
O que deixamos do outro quando partimos
A narrativa com que começámos permite-nos imaginar um encontro cujo desfecho não estava contido na primeira ofensa. Na vida quotidiana, não dispomos de garantias semelhantes. Algumas conversas melhoram; outras repetem-se até ser necessário encerrá-las. Nem a qualidade da nossa escuta assegura a abertura alheia, nem a nossa boa vontade consegue fazer, sozinha, o trabalho de uma relação.
Ainda assim, permanece ao nosso alcance a responsabilidade pelo modo como partimos. Podemos sair com clareza, procurar apoio, estabelecer distância e recusar novos encontros. Tudo isso cabe no respeito por nós próprios. O que merece vigilância é o prazer de levar uma pessoa inteira reduzida ao pior momento que vivemos com ela.
Reconhecer os limites do nosso conhecimento sobre alguém não nos torna indefesos. Permite-nos agir sobre o que sabemos, o que aconteceu, o que sentimos, aquilo que já não aceitamos, sem fingir que conhecemos tudo o que essa pessoa contém.
Ao fechar a porta de uma conversa, podemos deixar do outro lado um comportamento que recusamos, uma relação que terminou, uma dor que precisa de tempo. Não precisamos de deixar lá uma pessoa a quem retirámos, para sempre, a possibilidade de ser outra coisa.
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AUTORIA: José Paulo Santos

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