Homem viajante: o que o mundo continua a ensinar-me
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| Caminhos de um homem viajante |
Só é um homem completo aquele que muito viajou, que mudou vinte vezes a forma do seu pensamento e da sua vida. | Alphonse de Lamartine, Viagem ao Oriente (tradução do francês)
Viajei, vivi em diversos países e mudei inúmeras vezes a minha vida e a forma de pensar. Ao ler estas palavras do poeta, escritor e político francês, Lamartine (1790–1869), sinto que alguma coisa da minha história se reconhece nelas, embora uma pergunta me impeça de as acolher como um elogio: tudo isso me tornou mais sábio? Gostaria de responder com a segurança de quem apresenta uma conclusão, mas a vida ensinou-me também a desconfiar das conclusões que nos favorecem demasiado. Ter atravessado fronteiras, aprendido outros costumes e habitado outras línguas não me concede, por si só, uma compreensão mais profunda da existência. Obriga-me, isso sim, a perguntar o que fiz com aquilo que tive o privilégio de conhecer.
Há uma diferença entre os lugares por onde passámos e aquilo a que permitimos que nos acontecesse nesses lugares. Podemos percorrer milhares de quilómetros levando connosco uma ideia intacta do mundo, usando cada encontro para confirmar o que já pensávamos. Também podemos ficar perto de casa e encontrar, numa conversa que finalmente escutamos até ao fim, uma razão para rever toda uma certeza. A distância percorrida diz pouco sobre a disponibilidade para aprender.
Mudar de vida, mudar de olhar
Viver noutro país dá à viagem uma espessura particular. A novidade acaba por ceder lugar ao quotidiano; depois dos primeiros deslumbramentos, é preciso trabalhar, compreender regras, estabelecer relações e descobrir como se pertence a um lugar onde a nossa presença ainda não tem história. Somos estranhos e estrangeiros ou expatriados. Aquilo que em casa parecia evidente revela-se, por vezes, apenas familiar. O nosso modo de falar, de esperar, de educar ou de demonstrar afeto deixa de ser a medida silenciosa de todas as coisas.
Penso nas vidas que vivi em França, no Brasil, na Tunísia, na Guiné Equatorial, em Cabo Verde. Não as consigo reduzir a uma sucessão de nomes no mapa, porque a pergunta que hoje me interessa é outra: que parte de mim precisou de mudar para poder viver com os outros? Não me refiro apenas à adaptação aos costumes. Refiro-me ao esforço de reconhecer que uma pessoa pode organizar a sua existência de maneira muito diferente da minha e ter razões que eu ainda não compreendi.
É aqui que a viagem se torna exigente. Enquanto tudo nos encanta, a abertura ao mundo custa pouco; o trabalho começa quando encontramos o que nos desconcerta, contraria ou incomoda. Nesses momentos, compreender exige tempo, e o tempo exige que suspendamos a pressa de classificar. Continuamos a poder discordar, a defender a dignidade humana, a recusar a violência. A escuta não nos pede que abandonemos o discernimento; pede que o exercitemos sem transformar o outro numa caricatura.
A sabedoria não vem no passaporte
Há, contudo, uma palavra de Lamartine que me faz hesitar: "completo". Quanto mais penso no que vivi, menos me reconheço nessa ideia de acabamento. As experiências abriram perguntas que antes não sabia formular e mostraram-me a insuficiência de algumas respostas que eu pronunciava com convicção. Se houve crescimento, ele incluiu a descoberta de tudo o que continuo ainda sem saber.
Não gostaria, por isso, de fazer da viagem uma hierarquia entre pessoas. Há quem nunca tenha podido partir, por falta de dinheiro, por deveres de cuidado ou por circunstâncias que não escolheu, e possua uma compreensão admirável da condição humana. A atenção com que alguém acompanha uma vida pode ensinar tanto como a passagem por muitos países. Seria injusto confundir possibilidades materiais (que nem foi o meu caso!) com profundidade interior.
Posso ter vivido muito e continuar a escutar mal. Posso conhecer diferentes culturas e ser impaciente com quem está à minha frente, o que é muito comum e observável. A sabedoria, se a palavra ainda me serve, há de poder reconhecer-se também nestas situações discretas: na maneira como recebo uma crítica, como admito um erro, como evito usar a minha experiência para diminuir a experiência de outra pessoa. O mundo terá conseguido ensinar-me alguma coisa se esse conhecimento tornar mais habitável a minha presença junto dos outros.
Escrever para devolver
É pela escrita que procuro devolver ao mundo o que o mundo me ensinou e continua a ensinar-me. Escrevo a partir do que vivi, sabendo que viver não basta para compreender. Muitas experiências só revelam o seu alcance quando regressamos a elas com outra idade, outra perda, outra capacidade de escuta. A escrita permite-me esse regresso: detenho-me onde antes passei depressa e interrogo aquilo a que, na altura, dei um significado demasiado simples.
Ao escrever, também descubro que uma recordação não me pertence por inteiro. Nela existem pessoas com uma vida que ultrapassa o lugar que ocuparam na minha. Têm a sua história, as suas contradições, os seus silêncios. Devolver ao mundo o que recebi implica respeitar essa complexidade, sem reduzir ninguém a uma figura conveniente para ilustrar o que desejo dizer.
Esta é uma responsabilidade que me acompanha enquanto escritor. Quero encontrar palavras capazes de aproximar, de despertar uma pergunta, de oferecer companhia a quem lê. Não preciso de apresentar uma vida resolvida para que a escrita tenha valor. Posso partilhar uma inquietação com honestidade e deixar espaço para que o leitor encontre nela uma experiência diferente da minha. Há uma forma de hospitalidade nesse espaço.
A gratidão precisa de silêncio
É no silêncio do olhar e do pensamento que a gratidão se engrandece. Quando deixo de procurar uma conclusão para tudo, consigo reconhecer melhor o que recebi: a oportunidade de partir, as condições que me permitiram recomeçar, as pessoas que contribuíram para que eu pudesse ser quem sou. A minha história, que conto na primeira pessoa, foi-se tornando possível através de muitas outras.
Agradecer não me obriga a embelezar o passado. Houve mudanças terrivelmente difíceis e nenhuma reflexão precisa de tornar desejável aquilo que doeu. Posso reconhecer o valor do que aprendi sem agradecer a ferida; posso agradecer a presença que me ajudou a atravessá-la. Essa distinção preserva a verdade da experiência e impede que a gratidão se torne uma exigência cruel dirigida a quem sofre.
Hoje, quando penso no homem viajante que fui e continuo a ser, interessa-me menos contar as partidas do que perceber a qualidade da atenção que ainda consigo oferecer. Desejo conservar a disponibilidade para mudar de ideias, sobretudo quando isso me custa e para reconhecer no outro alguém que não esgotei com aquilo que julgo saber a seu respeito.
Continuo sem poder afirmar que as viagens me tornaram sábio. Sei que me deram matéria para pensar, motivos para agradecer e uma responsabilidade maior perante o que escrevo. É com isso que me sento diante da página: com uma vida que passou por muitos lugares e que ainda procura palavras para acolhê-los.
Escrevo para que o mundo que recebi não termine em mim.
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AUTORIA: José Paulo Santos

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