Alunos do Brasil e de outros países da CPLP nas escolas portuguesas: acolher, compreender e apoiar
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| Caderno aberto e vozes partilhadas |
Partilhar uma língua pode facilitar o encontro, mas não dispensa conhecer o percurso de cada aluno. Entre expectativas escolares, diferenças linguísticas e mudanças de vida, a integração constrói-se com orientações claras e uma relação em que seja possível pedir ajuda.
Imaginemos uma criança ou adolescente que chega a casa com um teste na mochila e demora a mostrá-lo. Estudou, reconheceu muitas das palavras, julgou compreender as perguntas, mas a classificação ficou longe do que esperava. A família interroga-se, procurando perceber se faltou trabalho, atenção ou vontade. Entretanto, a criança ou o jovem ouve e cala-se, porque também ela não sabe explicar o que aconteceu. Antes de concluir que precisa de se esforçar mais, seria importante sentarmo-nos ao seu lado e descobrir onde começou a dificuldade.
É neste espaço, entre aquilo que os adultos esperam e o que a criança consegue compreender e fazer, que se decide uma parte da integração escolar. Para alunos oriundos do Brasil, dos países africanos de língua oficial portuguesa ou de outros países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a existência de uma língua oficial comum pode criar a expectativa de uma adaptação quase imediata. Contudo, essa proximidade não torna iguais os percursos escolares, as experiências familiares ou a relação de cada criança com o português.
Uma língua partilhada, percursos diferentes
Há alunos para quem o português é a língua das conversas em casa, das brincadeiras e dos primeiros livros; para outros, convive com diferentes línguas familiares ou ocupa sobretudo o espaço da escola. Mesmo dentro de um país, estas experiências variam. Por isso, conhecer a nacionalidade de uma criança diz-nos pouco sobre a facilidade com que acompanha uma explicação, interpreta um enunciado ou organiza uma resposta escrita.
Importa igualmente distinguir aqui quem acabou de chegar de quem nasceu em Portugal e aqui realizou toda a escolaridade. Um aluno não está em processo de adaptação a um novo sistema apenas porque os seus pais vieram de outro país. Se encontra dificuldades, precisamos de as compreender a partir da sua experiência concreta, em vez de recorrer à origem familiar como explicação disponível para tudo.
Nas múltiplas visitas que realizei a escolas públicas e privadas no Brasil, assim como em Cabo Verde, encontrei contextos em que a exigência académica me pareceu sensivelmente inferior àquela a que estava habituado em Portugal. Trata-se de uma observação circunscrita às escolas que conheci, que não permite caracterizar todo o ensino brasileiro ou cabo-verdiano nem, muito menos, estender essa apreciação a outros países. Ainda assim, ajudou-me a perceber como uma mudança de escola pode confrontar um aluno com expectativas para as quais o seu percurso anterior não o preparou.
O ritmo das aulas, os conteúdos já pressupostos, a autonomia no estudo ou a forma de avaliar podem ser diferentes. Reconhecer esse desfasamento permite organizar apoio, desde que não o confundamos com falta de capacidade. Quem ainda não aprendeu determinado conteúdo precisa de oportunidades para o aprender; quem já o domina pode necessitar de compreender outra terminologia ou de conhecer melhor o tipo de resposta esperado.
Quando compreender as palavras não basta
A proximidade da língua pode tornar algumas dificuldades menos visíveis. Um aluno conversa com desenvoltura no intervalo e, por isso, os adultos estranham que não compreenda um texto de Ciências ou uma pergunta de História. Porém, a linguagem usada para aprender exige conhecimentos que não se revelam numa conversa quotidiana, seja qual for a nacionalidade de quem fala.
Também o Acordo Ortográfico de 1990 não teve como objetivo uniformizar a pronúncia, o vocabulário ou a construção das frases. Incidiu sobre a escrita e manteve diferenças, pelo que não seria razoável esperar que resolvesse as particularidades com que alunos e professores se encontram diariamente.
Diante de uma resposta incompleta, convém perguntar o que aconteceu antes de recomendar mais estudo. O aluno desconhecia a matéria? Não percebeu o pedido? Sabia responder oralmente, mas não conseguiu organizar o raciocínio por escrito? Pedir-lhe que explique, pelas suas palavras, o que entendeu da pergunta pode revelar mais do que voltar a ler a classificação.
Por exemplo, “identificar”, “comparar” e “fundamentar” pedem operações diferentes. Mostrar essas diferenças através de exercícios concretos ajuda a tornar explícito aquilo que, para o professor, já parece evidente. A exigência ganha sentido quando o aluno consegue perceber o caminho para lhe corresponder.
Aproximar a família antes que a dificuldade cresça
Uma conversa com o professor titular ou com o diretor de turma, no início do percurso, pode evitar muitos desencontros. Além das avaliações anteriores, é útil partilhar cadernos, informação sobre conteúdos trabalhados e aspetos do quotidiano: como a criança estudava, o que gostava de aprender, onde precisava de apoio e como está a viver a mudança.
Da parte da escola, faz toda a diferença explicar com clareza o que se espera, como se avalia, que materiais são necessários e por que meios se comunica com a família. Um exemplo bem simples: expressões como “encarregado de educação”, “diretor de turma” ou “critérios de avaliação” podem precisar de esclarecimento. Quando a informação não é compreendida, repetir incansavelmente que está disponível numa plataforma digital dificilmente resolve o problema.
Enquanto Mediador Linguístico e Cultural, considero particularmente importante que as famílias sintam que podem fazer perguntas sem receio de parecer desinformadas. Onde existe este recurso, o mediador pode ajudar a esclarecer procedimentos e a aproximar interlocutores; contudo, a disponibilidade para explicar e escutar precisa de atravessar a relação da escola com toda a comunidade.
Essa aproximação exige também atenção às condições reais de cada família. Horários de trabalho difíceis, acesso limitado a equipamentos ou pouca familiaridade com ferramentas digitais podem condicionar o acompanhamento. Antes de interpretar uma ausência como desinteresse, vale a pena procurar saber o que a tornou inevitável e combinar outra forma de contacto.
Estudar com orientação, sem transformar a casa num tribunal
Em casa, uma rotina regular e possível de cumprir tende a ser mais útil do que longas sessões de estudo marcadas pela aflição. Reservar algum tempo para rever a matéria, resolver exercícios e anotar dúvidas ajuda a criar continuidade, sobretudo quando o aluno aprende a explicar o que compreendeu.
Os familiares não precisam de dominar todas as disciplinas para acompanhar este trabalho. Podem ajudar a organizar os materiais, consultar os prazos e substituir a pergunta habitual, “já estudaste?”, por outra que permita conversar: “O que conseguiste fazer sozinho e onde precisas de ajuda?”. A resposta pode mostrar um esforço que a nota ainda não tornou visível.
Se uma dificuldade se repete, convém pedir ao professor uma orientação concreta e escolher prioridades. Tentar recuperar tudo ao mesmo tempo pode aumentar o desânimo; começar por uma aprendizagem necessária, com tarefas adequadas e uma data para rever o progresso, torna o trabalho mais compreensível.
Também merece bastante cuidado a maneira como os adultos falam do sacrifício de emigrar. Dizer a uma criança que a família mudou de país por ela e que, por isso, tem obrigação de obter bons resultados pode acrescentar culpa à dificuldade. É possível valorizar o esforço familiar e exigir compromisso com o estudo sem fazer de cada teste uma prestação de contas sobre a mudança de vida.
Ganhar familiaridade sem perder pertença
A leitura regular, o recurso à biblioteca escolar e o contacto com conteúdos produzidos em Portugal podem ajudar a conhecer vocabulário e formas de expressão menos familiares. Essa aproximação será mais fecunda se partir também dos interesses do aluno, permitindo-lhe escolher um livro, acompanhar um tema ou conversar sobre algo que lhe desperte curiosidade.
Ao mesmo tempo, os livros, as histórias e as línguas da família merecem lugar nesse percurso. Descobrir Sophia de Mello Breyner Andresen pode coexistir com a leitura de Carlos Drummond de Andrade, José Eduardo Agualusa, Germano de Almeida, Mia Couto, Olinda Beja ou de outro autor do país de origem. Aprender novas formas de dizer alarga as possibilidades de expressão, sem exigir vergonha pelas que já se conhecem.
Esse cuidado estende-se às relações entre colegas. Um aluno que receia ser imitado quando fala pode começar a participar menos, mesmo quando sabe a resposta. Por isso, acolher implica atender ao que acontece no intervalo, nos trabalhos de grupo e nas pequenas brincadeiras que, repetidas, deixam alguém sempre no lugar de quem é observado.
Participar num clube, numa atividade desportiva ou num projeto comum pode favorecer amizades e criar oportunidades de colaboração. A escola torna-se mais habitável quando existe alguém que espera por nós para fazer um trabalho ou que repara na nossa ausência.
A responsabilidade de encontrar o apoio certo
Quando as dificuldades persistem, família e escola precisam de acordar um acompanhamento claro: o que deve ser reforçado, que apoios podem ser mobilizados e quando voltarão a conversar. As orientações da Direção-Geral da Educação (DGE) para a inclusão de alunos migrantes valorizam a diversidade dos percursos e a construção de respostas inclusivas. Esse princípio pede atenção à situação de cada aluno, evitando soluções escolhidas apenas em função da sua origem.
É compreensível que as famílias desejem uma integração rápida, sobretudo quando a mudança trouxe incerteza e grandes expectativas. Ainda assim, pressionar a criança para que deixe depressa de sentir dificuldades pode impedi-la de as revelar. Precisamos de lhe mostrar que o esforço conta, que há responsabilidades a assumir e que existe alguém disponível para a ajudar a perceber o próximo passo.
Voltemos, pois, à criança que demorava a tirar o teste da mochila. Ao sentarmo-nos com ela, podemos começar por pedir que nos mostre uma resposta de que se sentiu segura e outra em que não soube como avançar. A classificação continua a merecer atenção, mas já temos matéria para trabalhar e uma dúvida concreta para levar ao professor.
No dia seguinte, essa criança poderá entrar na sala ainda sem saber tudo o que lhe é pedido, mas com confiança suficiente para levantar a mão. Para quem começava a esconder as dificuldades, esse gesto já é uma conquista grandiosa.
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AUTORIA: José Paulo Santos

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