Sou uma pessoa muito pacífica. O problema são os outros.

 

Paz ao espelho, irritação no reflexo

Defendemos a empatia, a tolerância e o respeito. Depois alguém demora a arrancar no semáforo. Uma visita bem-humorada às pequenas contradições com que atravessamos o dia e ao que a Comunicação Não Violenta nos pode ajudar a reconhecer.

Proponho uma experiência: acompanhar um dia na vida de uma pessoa razoável, educada, defensora dos direitos humanos e profundamente preocupada com a falta de civismo. Não lhe daremos nome, por respeito à privacidade de todos nós. A personagem é imaginada; os hábitos, infelizmente, dispensam grande imaginação. Se, durante a leitura, reconhecer imediatamente o seu marido, a sua esposa, um colega ou aquele amigo impossível, faça o favor de rodar o espelho. A experiência começa do lado de cá.

8h15 — A paz mundial termina numa rotunda

A nossa pessoa pacífica entra no carro depois de publicar uma frase sobre a importância de aceitar os ritmos de cada um. Quatro minutos depois, encontra um condutor que leva essa recomendação demasiado a sério. Buzina. Comenta as capacidades intelectuais do desconhecido. Sem nunca o ter visto, consegue ainda formular uma avaliação bastante completa da educação que recebeu.

Quando é ela a hesitar numa saída, porém, a situação tem contexto: não conhece a zona, o GPS confundiu-a, toda a gente se engana. O outro é incompetente; nós estamos a passar por uma circunstância.

A CNV convida-nos a separar o que observamos da história que construímos sobre isso. O carro demorou a avançar. A biografia moral do condutor foi escrita por nós. Reconhecer o susto ou a impaciência, manter a distância e continuar o percurso é uma resposta possível. Não precisamos de gostar da condução alheia nem de transformar uma infração em virtude. Precisamos de chegar ao destino sem acrescentar perigo ao que nos irritou.

9h30 — “Conforme já referi” e outras armas de escritório

No trabalho, somos profissionais. Não gritamos. Escrevemos conforme já referi no email anterior, expressão que permite dar um murro na mesa sem derramar o café. Acrescentamos agradeço que tenha isso em consideração e terminamos com os melhores cumprimentos, porque a civilização exige guardanapo, mesmo quando se serve ressentimento.

O colega não enviou o documento e, na nossa cabeça, já deixou de ser alguém que falhou um prazo: é um irresponsável. Se fomos nós a falhar, temos excesso de trabalho. Aliás, é precisamente o excesso de trabalho que nos impede de explicar ao colega como ele é irresponsável com maior detalhe.

Podemos experimentar outra abordagem: “Ainda não recebi o ficheiro combinado para ontem e preciso dele para concluir o relatório. Consegues enviá-lo até às onze? Se não conseguires, precisamos de combinar uma alternativa.” O problema continua identificado, o prazo mantém importância e o colega tem uma pergunta concreta a que responder. A irritação não precisa de obter um cargo permanente na relação.

12h40 — A humanidade precisa urgentemente do nosso comentário

Durante o almoço, abrimos as redes sociais e encontramos alguém errado. Não apenas enganado num pormenor: errado de uma maneira que ameaça o equilíbrio do planeta. Lemos o título, dispensamos o artigo e avançamos para a intervenção humanitária.

Começamos por com todo o respeito, aviso que deveria obrigar o leitor a colocar um capacete. Defendemos a tolerância chamando ignorante ao interlocutor e, quando ele responde, lamentamos a agressividade que tomou conta das redes sociais.

Antes de publicar, uma pergunta pode poupar-nos bastante trabalho: queremos esclarecer uma ideia ou conquistar uma plateia? Podemos contestar uma afirmação, pedir uma fonte, apresentar um argumento. Também podemos fechar a aplicação. A humanidade suportará alguns minutos sem a nossa supervisão.

Num exercício proposto pela CNV, somos convidados a rever uma mensagem que nos irritou, identificar os rótulos que surgiram e reformulá-los como observações. É um bom princípio para o comentário que ainda não enviámos: o que foi efetivamente dito e o que acrescentámos nós sobre a inteligência, as intenções e o caráter de quem escreveu?

17h20 — O amigo foi visto online. Está tudo provado.

Enviámos uma mensagem há duas horas. O amigo esteve online e não respondeu. A investigação está concluída: não quer saber de nós. Um pequeno indicador no telemóvel acaba de fornecer mais certezas sobre uma amizade de vinte anos do que todas as conversas que tivemos com aquela pessoa.

Não sabemos se abriu a aplicação para responder ao filho, resolver um problema ou procurar uma morada. Sabemos apenas que apareceu online. O resto é um romance psicológico, escrito por nós, com o amigo no papel do ingrato.

Se precisamos de uma resposta, podemos dizer para quando e porquê. Se sentimos falta daquela amizade, podemos perguntar quando haverá tempo para conversar. É uma exposição mais honesta do que enviar não te incomodo mais, frase que geralmente pretende incomodar com a máxima eficácia.

19h00 — A família devia adivinhar. Tem tido tempo para aprender.

Chegamos a casa e encontramos a loiça por arrumar. O que nos sai da boca é “nesta casa ninguém faz nada”. Trata-se de uma descoberta extraordinária, sobretudo numa casa onde todos comeram, se vestiram, trabalharam ou foram à escola. Mas estamos cansados e o cansaço aprecia estatísticas absolutas.

O marido ou a esposa responde apresentando a lista do que fez. Nós acrescentamos tarefas omitidas. Em poucos minutos, o jantar deu lugar a uma auditoria, com documentação acumulada desde as férias de 2018.

Por baixo da discussão pode existir uma questão muito concreta: a distribuição do trabalho é desigual, falta descanso ou precisamos de sentir que não temos de organizar tudo sozinhos. Convém dizê-lo com essa clareza e combinar responsabilidades. Um pedido pontual para arrumar a cozinha pode resolver aquela noite; uma conversa sobre quem faz, quem planeia e quem tem de lembrar pode evitar muitas outras. A CNV também precisa de chegar à divisão das tarefas. A loiça não se lava com vocabulário emocional.

20h10 — “Quantas vezes tenho de te dizer para não gritares?”, gritamos

Com os filhos, a coerência entra frequentemente em obras. Mandamo-los largar o telemóvel enquanto acabamos de responder a uma mensagem. Pedimos que contem tudo e interrompemo-los à terceira frase, porque já percebemos perfeitamente o problema. Queremos que aprendam a pensar pela própria cabeça, desde que cheguem à conclusão que preparámos.

Educar exige limites e decisões que nem sempre agradam. Mas podemos explicá-los sem fazer da criança uma adversária. Podemos também reconhecer uma contradição: Tens razão, pedi-te que largasses o telemóvel e continuei no meu. Vou guardá-lo. Esta frase não provoca o colapso da autoridade parental. Pelo contrário, mostra como se assume responsabilidade sem recorrer a uma comissão de inquérito.

Quando perdemos a paciência, reparar faz parte da educação. Reconhecer que gritámos, pedir desculpa por isso e retomar o limite com clareza ensina algo que nenhum sermão substitui: os adultos também precisam de corrigir o que fazem.

23h00 — O último comentário é contra nós

Ao fim do dia, revemos os nossos comportamentos e concluímos que somos um desastre. Depois de distribuir sentenças pela estrada, pelo trabalho e pela família, reservamos a mais severa para nós. Até na autocrítica gostamos de ter a última palavra.

A autoempatia, tal como é apresentada pela CNV, convida-nos a reconhecer o que sentimos e aquilo de que precisamos, procurando depois uma resposta possível. Inclui olhar para as falhas sem usar a culpa como instrumento de mudança. Podemos admitir que estivemos impacientes, perceber o que contribuiu para isso e decidir reparar uma conversa. Não precisamos de transformar um mau momento num retrato definitivo da nossa pessoa.

O objetivo deste espelho não é provar que somos hipócritas. É permitir que vejamos, com alguma ternura e suficiente honestidade, a distância entre aquilo que defendemos e aquilo que fazemos quando estamos cansados, assustados ou contrariados. O humor ajuda se nos incluir; perde a graça quando serve apenas para reconhecer os defeitos dos outros.

Amanhã haverá outra rotunda, outro email e alguém que não responderá à velocidade das nossas expectativas. Podemos começar por uma mudança pequena: descrever antes de acusar, perguntar antes de concluir, pedir antes de cobrar. 

E, quando nos ouvirmos dizer que o mundo precisa de pessoas mais conscientes, convém aproveitar a proximidade de uma que está sempre disponível para começar: nós próprios.

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AUTORIA: José Paulo Santos

 

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