E se amanhã ainda chover?
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| Se chover tenho um abrigo para ti |
Mais vale chover hoje do que num dia em que esteja bom tempo. — Pierre Dac (tradução do francês)
Uma frase à cabeceira
Há dias em que “amanhã será melhor” é tudo o que conseguimos dizer a nós próprios antes de apagar a luz. Dizemo-lo com a convicção possível, depois de uma conversa que correu mal, de uma notícia que nos deixou sem chão ou de um cansaço para o qual já não encontramos sequer uma explicação. A frase fica ali, à cabeceira, como um copo de água: não resolve a vida, mas oferece alguma coisa a quem tem sede. E, por uma noite, permite-nos descansar da obrigação de encontrar uma saída.
O humor de Pierre Dac (1893–1975), célebre humorista, comediante e escritor francês, famoso pelos seu humor absurdo e satírico, em que durante a Segunda Guerra Mundial se destacou como membro da Resistência Francesa e voz emblemática da Rádio Londres da BBC, introduz uma pequena desordem nesta nossa necessidade de consolo. Mais vale chover hoje do que num dia de bom tempo: a evidência é tão disparatada que nos desarma. A chuva continua a cair, os sapatos continuam molhados, porém já conseguimos sorrir perante aquilo que, segundos antes, parecia apostado em arruinar-nos a existência. Há nesta mudança de olhar uma liberdade modesta e preciosa. O mundo não obedeceu à nossa vontade, embora tenha perdido, por instantes, o poder de ocupar tudo dentro de nós.
Um dia mau não decide quem somos
Precisamos desse intervalo. Levamo-nos tão a sério na tarefa de viver que uma manhã desastrosa depressa se transforma num juízo sobre a nossa vida inteira. Esquecemo-nos de uma coisa e declaramo-nos incapazes; alguém nos responde com impaciência e concluímos que ninguém nos respeita; um projeto falha e revemos o passado à procura de provas de que nunca fomos suficientemente bons. O sofrimento ganha assim um ajudante incansável: a maneira como falamos connosco. Ao que aconteceu acrescentamos uma sentença, quase sempre redigida sem direito a defesa.
Um dia mau, contudo, não tem competência para decidir quem somos. Pode revelar um limite, trazer à superfície uma necessidade esquecida, obrigar-nos a reconhecer uma escolha que precisa de ser revista. Merece atenção. O que não merece é receber as chaves da casa e instalar-se como intérprete definitivo da nossa existência. Há uma diferença profunda entre reconhecer “hoje não consegui” e concluir “eu não consigo”. Na distância entre estas duas frases cabe a possibilidade de recomeçar.
Antes do consolo, a escuta
É também por isso que convém escutar com cuidado o nosso “amanhã será melhor”. Dito com ternura, ajuda-nos a atravessar a noite; usado para despachar a tristeza, pode deixar alguém ainda mais sozinho. Quem acaba de perder uma pessoa amada, quem teme o futuro ou quem chegou ao limite do cansaço pode precisar de contar o que lhe dói antes de ouvir que tudo passará. A pressa em tranquilizar, mesmo quando nasce do afeto, rouba por vezes à dor o tempo de que necessita para se tornar partilhável. Há momentos em que “estou aqui, podes falar” oferece mais esperança do que uma previsão luminosa.
A Comunicação Não Violenta convida-nos a permanecer nesse lugar de escuta, incluindo quando somos nós quem precisa de ser ouvido. Debaixo da irritação pode haver uma necessidade de descanso que fomos adiando; no desânimo pode pesar a falta de reconhecimento; a tristeza pode aproximar-nos daquilo a que continuamos profundamente ligados. Nada disto exige que encontremos imediatamente uma explicação para tudo. Podemos começar por uma pergunta simples e exigente: de que preciso hoje, neste estado em que me encontro, sem ter de fingir que sou outra pessoa?
O direito a ter pouca bateria
Responder-lhe pede uma honestidade que nem sempre nos permitimos. É difícil admitir que precisamos de ajuda quando construímos a nossa identidade em torno de sermos úteis. Custa pedir companhia quando receamos tornar-nos um peso. E descansar pode parecer uma falta moral a quem aprendeu a medir o próprio valor pelo que consegue produzir. Acabamos a exigir de um ser humano aquilo que nem exigiríamos de um telemóvel: funcionamento contínuo, disponibilidade permanente e uma bateria que se recarregue por força de vontade.
Aqui, o humor volta a ter lugar. Um humor que nos devolva proporção, que nos permita reconhecer o absurdo das nossas exigências sem fazer de nós alvo de desprezo. Conseguir sorrir da tentativa de controlar a vida inteira antes do pequeno-almoço pode ser um gesto de reconciliação connosco. Esse sorriso deixa-nos imperfeitos, evidentemente, mas um pouco menos ocupados a castigar a imperfeição. E há energia que regressa quando deixamos de a gastar contra nós próprios.
A esperança precisa de gestos
Isso não torna desejável o sofrimento. Há dores que não trazem nenhuma lição que compense o que levaram e ninguém deveria sentir-se obrigado a sair de uma perda mais sábio, mais forte ou mais grato. A esperança precisa de respeitar também essa recusa. Pode começar na possibilidade de voltar a saborear uma refeição, de aceitar um convite, de passar uma tarde sem ter de justificar o silêncio. São acontecimentos discretos, incapazes de corrigir o passado, mas capazes de devolver espaço à vida.
“Amanhã será melhor” ganha, então, outra responsabilidade. Podemos preparar-lhe alguma coisa hoje: pedir desculpa por uma palavra que feriu, dizer que já não conseguimos continuar ao mesmo ritmo, procurar apoio, telefonar a quem nos faz bem. Também podemos participar no amanhã de alguém, oferecendo tempo, repartindo uma tarefa, cumprindo a promessa de voltar. Uma esperança sustentada por gestos torna-se mais habitável do que aquela que depende exclusivamente do calendário mudar.
Há lugar debaixo deste guarda-chuva
E se amanhã ainda chover? Haverá desilusão, certamente, porque somos humanos e gostaríamos de receber alguma garantia. Ainda assim, podemos abrir a janela antes de declarar o dia perdido. Podemos reconhecer que estamos tristes e pôr a mesa; que temos medo de atender o telefone; que não sabemos como será o futuro e, apesar disso, guardar lugar para alguém.
Na imagem que acompanha a frase de Pierre Dac, os gatos permanecem debaixo da chuva, com os seus guarda-chuvas e o seu ar pouco impressionado com a meteorologia. Olhando-os, apetece acrescentar uma promessa mais pequena ao nosso habitual “amanhã será melhor”: se ainda chover, chego-me um pouco para o lado, para caberes também.
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AUTORIA: José Paulo Santos

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