Livro: O Essencial da Comunicação Não-Violenta de Marshall Rosenberg
Antes de responder, há uma pessoa para escutar
Há discussões em que começamos por discordar da loiça por lavar e acabamos a julgar o carácter de quem a deixou no lava-loiça. Entre uma coisa e outra, perde-se a possibilidade de dizer o que nos custa e de compreender o que se passa com o outro. É neste território tão quotidiano que a proposta de Marshall B. Rosenberg ganha sentido.
O Essencial da Comunicação Não-Violenta — Um guia para comunicar com sucesso, publicado pela Alma dos Livros, apresenta os quatro componentes que sustentam esta abordagem: observar sem confundir os acontecimentos com os nossos julgamentos, reconhecer sentimentos, identificar necessidades e formular pedidos claros. Enunciá-los demora poucos segundos; dar-lhes lugar nas nossas relações exige atenção, prática e disponibilidade para rever certezas.
O interesse desta proposta está na responsabilidade que nos convida a assumir. Quando digo a alguém que é egoísta, entrego-lhe um rótulo e preparo o terreno para a defesa. Quando consigo explicar o que aconteceu, como me sinto e de que preciso, torno mais compreensível a minha experiência. A conversa pode continuar difícil, mas passa a ter espaço para algo além da acusação.
Convém, contudo, ler a promessa de "comunicar com sucesso" com exigência. O sucesso de uma conversa não se mede pela capacidade de obter um "sim". Um pedido só preserva o seu sentido quando existe liberdade para recusar. E a empatia precisa de conviver com a firmeza: compreender alguém pode ajudar-nos a estabelecer limites sem o humilhar.
Para quem se aproxima da CNV, esta obra apresenta-se como uma porta de entrada nos seus fundamentos. Para quem já a conhece, o regresso ao essencial pode servir de pergunta incómoda e necessária: estamos a escutar uma pessoa ou apenas à espera da nossa vez de falar? É uma pergunta que merece acompanhar-nos depois de fecharmos o livro.
José Paulo Santos
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