«Fui honesta e sincera»: e o que ficou por ouvir?

 

Quando a máscara é incapaz de escutar

A plenitude do amor ao próximo consiste simplesmente em sermos capazes de lhe perguntar: “Qual é o teu tormento?"

— Simone Weil, Attente de Dieu (1950)

Imaginemos uma conversa que termina com alguém a dizer: “Fui honesta e sincera.” Do outro lado, uma pessoa fica sentada, sem saber o que fazer com aquilo que ouviu. Tinha começado a explicar o que a magoara. Ainda não chegara ao fim, mas a declaração encerrou o assunto: quem falou considera-se esclarecido; quem ficou ferido terá agora de resolver sozinho o incómodo de lhe doer.

A frase, por si só, não prova falta de honestidade. Há quem precise de se defender de uma acusação injusta ou de esclarecer uma intenção que não conseguiu transmitir. O perigo começa quando a usamos para impedir que a conversa continue. Quando “fui sincera” passa a significar: já expliquei as minhas intenções, não tenho de ouvir o que sentiste.

Nesse momento, a imagem que queremos preservar de nós próprios torna-se mais importante do que a pessoa que temos à frente.

A sinceridade também pode ferir

Podemos acreditar no que dizemos e ser injustos. Aquilo a que chamamos “a verdade” pode conter uma interpretação apressada, um ressentimento antigo ou a vontade de devolver uma humilhação. Sentimo-lo com tanta força que deixamos de o questionar. Depois, dizemo-lo a alguém como se a sinceridade nos dispensasse de cuidar das palavras.

Numa relação próxima, sabemos onde uma frase vai doer, conhecemos a insegurança com o corpo, o medo de ser abandonado, a vergonha de um fracasso. Sabemos porque houve confiança e porque alguém nos deixou entrar numa parte da sua vida que costuma manter resguardada.

Quando usamos essa confidência numa discussão, fazemos mais do que vencer um argumento. Tornamos inseguro um lugar onde a pessoa julgava poder descansar. E dizer, depois, “limitei-me a ser sincera e franca” não repara o que aconteceu. Quem confiou em nós fica a perguntar-se o que poderá voltar a contar-nos sem recear que um dia isso seja usado contra si.

A calma não nos dá razão

Também se pode magoar sem levantar a voz. Basta recusar, com toda a serenidade, ouvir aquilo que alguém tenta explicar. O tom é baixo, as palavras são cuidadas, a expressão mantém-se tranquila. Do outro lado, a pessoa atrapalha-se, chora, perde o fio ao pensamento. E nós usamos essa diferença para concluir que estamos a ser razoáveis e ela não.

A calma não garante justiça. Há quem se altere por estar há demasiado tempo a tentar ser ouvido. Há quem consiga manter a compostura porque não é a sua dor que está em discussão.

Convém reparar no que fazemos com a fragilidade que surge à nossa frente. Se alguém começa a chorar, continuamos interessados em compreender ou aproveitamos para desvalorizar o que diz? Quando ouvimos “isso magoou-me”, procuramos saber o que aconteceu ou respondemos logo “és demasiado sensível”?

Uma conversa torna-se profundamente solitária quando precisamos de provar que a nossa dor merece atenção.

Quando defendemos a imagem e esquecemos a pessoa

Gostamos de nos considerar honestos, sensíveis, bem-intencionados. Essa imagem não nasceu do nada. Lembramo-nos das vezes em que ajudámos, do que sacrificámos, do cuidado que tivemos. Quando alguém nos diz “magoaste-me”, podemos sentir que está a apagar tudo o que fizemos de bom.

Começamos então a defender a nossa vida inteira, recordamos favores, dificuldades, provas de dedicação. Trazemos à conversa os erros de quem nos interpela. “E quando tu fizeste aquilo?” O assunto muda, a tensão aumenta e a mágoa inicial fica sem resposta.

Entretanto, alguém continua à espera de falar sobre o que aconteceu naquela tarde. Que tarte?

Reconhecer uma falha concreta não apaga a nossa dignidade. Podemos ter sido generosos em muitas ocasiões e injustos nesta. Podemos amar uma pessoa e ter-lhe falado com crueldade. Aceitar essa contradição permite-nos fazer alguma coisa por ela e negá-la obriga o outro a suportar o que fizemos e, ainda, a defender-nos da possibilidade de o reconhecermos.

O silêncio de quem se cansou

Há relações em que uma pessoa passa a ensaiar tudo o que vai dizer. Procura a hora certa, troca uma palavra por outra, evita um tom que possa ser mal interpretado. Quer falar de uma ferida, mas começa por garantir que não está a acusar ninguém. Pede desculpa por trazer o assunto. Quase pede desculpa por continuar magoada.

Aos poucos, vai reduzindo o que espera. Já não pede uma mudança; pede apenas que a deixem terminar uma frase. Depois, cansa-se. Deixa de insistir.

Esse silêncio pode ser confundido com entendimento. A casa fica mais sossegada, as discussões diminuem, parece que tudo se resolveu, mas uma pessoa pode calar-se porque perdeu a esperança de ser ouvida. Continua presente, cumpre os gestos do dia, responde ao que é necessário. Guarda para si aquilo que antes procurava partilhar.

Devíamos ter mais cuidado com a paz que depende de alguém desistir de falar.

Ouvir sem ter de concordar com tudo

Escutar a dor de alguém não significa aceitar todas as suas acusações. Há interpretações injustas, pedidos que não podemos satisfazer e limites que precisamos de manter. Uma recusa pode causar sofrimento e continuar a ser necessária.

Ainda assim, podemos explicar um limite sem humilhar quem sofre com ele. Podemos dizer “não foi isso que aconteceu” e dar espaço à pessoa para contar como viveu a situação. Podemos reconhecer a parte que nos cabe sem assumir o que não fizemos.

A dificuldade está em permanecer na conversa quando ela deixa de nos favorecer. Escutar até ao fim. Perguntar antes de concluir. Resistir à vontade de ir buscar uma falha antiga apenas para equilibrar as culpas.

Não precisamos de sair de todas as conversas com a nossa razão intacta. Apenas precisamos de perceber o que se passou entre nós e o que faremos a seguir.

Reparar exige gestos

“Disse aquilo diante dos outros e expus-te.” “Prometi estar presente e não apareci.” “Interrompi-te quando tentavas explicar.”

Estas frases permitem começar uma reparação porque nomeiam o que aconteceu. São diferentes de “lamento se ficaste magoado”, que pode deixar toda a responsabilidade na maneira como o outro recebeu as nossas palavras. Reconhecer um comportamento concreto obriga-nos a olhar para ele e a pensar no que vamos mudar.

Depois, há que aceitar o tempo de quem foi ferido. Um pedido de desculpa não devolve automaticamente a confiança. A pessoa pode precisar de distância, de esclarecer o que ficou por dizer, de observar se o nosso comportamento muda. Não nos cabe exigir que recupere depressa para deixarmos de nos sentir desconfortáveis.

A reparação acontece também nos dias em que já não se fala do assunto: quando respeitamos uma confidência, cumprimos o que prometemos, deixamos alguém terminar. É aí que as nossas intenções começam a tornar-se reconhecíveis.

Deixar a conversa continuar

É difícil admitir que magoámos alguém, sobretudo quando gostamos dessa pessoa. Obriga-nos a olhar para a distância entre o que sentimos e o que fazemos. A vontade de nos justificarmos pode ser enorme. Quem está à nossa frente precisa que consigamos permanecer um pouco nesse desconforto, sem lhe devolver a culpa.

Quando nos ouvirmos dizer “fui honesta e sincera”, vale a pena fazer uma pausa. Perceber se estamos a esclarecer alguma coisa ou a encerrar o que ainda não quisemos ouvir.

Podemos começar por uma pergunta simples: “O que ficou por me dizeres?”. E deixá-la ser respondida.

Do outro lado pode estar alguém que não quer destruir a imagem que temos de nós. Quer apenas deixar de ser ferido para que ela permaneça intacta.

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AUTORIA: José Paulo Santos

 

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