Também se pode dominar falando baixinho
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| A trama do sussurro e a fresta de luz |
Falar com delicadeza não garante que estejamos a respeitar alguém. Podemos usar palavras sobre sentimentos e necessidades para obter obediência, despertar culpa ou impedir uma recusa. A Comunicação Não Violenta exige que olhemos para aquilo que fazemos com as palavras.
Imaginemos uma responsável que pede a uma colega para assumir mais uma tarefa. Fala calmamente, explica que está preocupada e que precisa de cooperação. A colega responde que já está sobrecarregada. A responsável mantém o sorriso e comenta que esperava encontrar nela maior espírito de equipa. Pouco depois, a tarefa está aceite. Não houve gritos nem insultos, mas houve pressão: para proteger os seus limites, a colega teria de aceitar ser considerada pouco cooperante.
É disto que falamos quando dizemos que também se pode dominar falando baixinho. A pessoa parece ter liberdade para responder, mas percebe que uma recusa terá um preço: desaprovação, culpa, afastamento ou desvalorização. A pergunta foi apresentada como um pedido; na prática, só uma resposta era aceitável.
A diferença revela-se quando alguém diz «não»
Na Comunicação Não Violenta, um pedido implica disponibilidade para escutar uma recusa e procurar compreender as necessidades envolvidas. O próprio Center for Nonviolent Communication (CNVC) propõe que nos interroguemos sobre o uso do poder e sobre a possibilidade de estarmos a disfarçar uma exigência de pedido.
Podemos perceber essa diferença em situações quotidianas. Dizer "preciso de atenção" é legítimo; acrescentar "se gostasses de mim, cancelavas os teus planos" transforma essa necessidade numa pressão sobre a liberdade do outro. Expressar tristeza pode abrir uma conversa; usar essa tristeza como prova de que alguém nos deve obedecer fecha-a.
Uma necessidade merece consideração, mas não determina, por si só, aquilo que outra pessoa tem de fazer. Precisar de segurança numa relação não nos dá o direito de vigiar o telemóvel do companheiro. Precisar de cooperação numa equipa não torna razoável qualquer tarefa que queiramos atribuir.
Também existem obrigações, regras e responsabilidades que não dependem apenas da vontade individual. Nesses casos, importa explicá-las com clareza, incluindo o que pode ser discutido. Apresentar como escolha aquilo que já está decidido cria uma aparência de participação e compromete a confiança.
Thomas d’Ansembourg: a consciência antes da fórmula
Foi através do livro Seja Verdadeiro, em 2006, que iniciei o meu percurso na CNV. Thomas d’Ansembourg continua a ajudar-nos a compreender que esta aprendizagem exige um trabalho sobre as nossas intenções e hábitos. Na apresentação de uma das suas conferências, disponível no seu site, aborda precisamente as máscaras de complacência e os mecanismos inconscientes de violência subtil.
A reflexão aplica-se também a quem conhece bem a CNV. Podemos aprender a dizer "eu sinto", "eu preciso" e "gostaria que", mantendo a intenção de conseguir que tudo aconteça à nossa maneira. As palavras parecem adequadas, mas falta a disponibilidade para sermos contrariados. Por isso, d’Ansembourg refere-se frequentemente a um processo de Consciência Não Violenta, salientando a importância de reconhecer os hábitos que precedem a nossa forma de comunicar.
A pergunta prática é simples: estou a tentar compreender esta pessoa ou a descobrir como fazê-la ceder? Escutar as suas dificuldades para construir uma solução comum é diferente de usar aquilo que sei sobre ela, o medo de desiludir, por exemplo, para obter a resposta que desejo.
Quando a linguagem emocional serve para calar
Há outra situação que merece atenção: alguém apresenta uma queixa e recebe, em resposta, uma explicação sobre a sua suposta fragilidade. Dizemos-lhe que está a reagir a uma ferida antiga, que precisa de trabalhar a raiva ou que é responsável pelo que sente. Em vez de discutirmos o que aconteceu, passamos a avaliar a pessoa que se queixou.
Se humilhei um aluno, divulguei uma confidência ou ignorei um limite, preciso de reconhecer o meu comportamento. A capacidade do outro para gerir emoções não elimina a minha responsabilidade. Da mesma forma, uma pessoa pode estar nervosa e apresentar uma queixa legítima; outra pode falar serenamente e evitar responder pelos seus atos. A calma não prova quem tem razão.
Isto não significa que uma frase infeliz seja suficiente para identificar manipulação. Importa observar o que se repete: quem cede sempre, que assuntos nunca podem ser discutidos e o que acontece quando alguém discorda. Uma relação respeitadora permite esclarecer, corrigir e reparar.
O respeito precisa de consequências concretas
Voltemos à responsável e à colega. Uma mudança verdadeira começaria por reconhecer que foi injusto associar a recusa à falta de espírito de equipa. Depois, seria necessário rever a distribuição do trabalho, definir prioridades e procurar alternativas. A colega teria de poder apresentar os seus limites sem que isso se transformasse numa acusação contra o seu caráter.
É este o desafio da CNV nas famílias, nas escolas e nas organizações: fazer com que a escuta tenha efeitos nas decisões. Podemos discordar, sentir frustração e estabelecer limites, preservando a dignidade de todos. O respeito torna-se visível quando a resposta do outro é diferente daquela que esperávamos e, ainda assim, continuamos a levá-la a sério.
Conheça as conferências e os recursos de Thomas d’Ansembourg.
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AUTORIA: José Paulo Santos

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