Não foi isso que eu disse: quando a escuta nos desfigura

 

As sombras do diálogo

 «Alguém que escute sem te aconselhar, sem te julgar, sem nada esperar.»
— in Pensador, José Paulo Santos

Há um cansaço particular em ter de provar o que acabámos de dizer. As palavras ainda estão na sala e já regressam com outra intenção, outro peso, uma crueldade que não lhes pusemos. Pedimos atenção e respondem-nos que exigimos demasiado. Apontamos uma dificuldade e somos acusados de nunca estarmos satisfeitos. Tentamos esclarecer e ouvimos: "Agora estás a mudar a conversa." Ao fim de algum tempo, já nem discutimos o assunto que nos trouxe ali. Estamos ocupados a defender-nos de uma frase que nunca dissemos.

Imaginemos uma conversa ao fim do dia. Alguém diz: "Gostaria que tivéssemos mais tempo para nós". A resposta chega depressa: "Portanto, achas que não faço nada por esta família." No trabalho, um pedido de esclarecimento sobre uma tarefa transforma-se numa suposta falta de respeito pela competência de um colega. Entre pais e filhos, "preciso de estar um pouco sozinho" pode ser recebido como "já não queres saber de nós". São situações diferentes, mas há nelas um desencontro semelhante: uma interpretação ocupa o lugar do que foi dito e passa a ser tratada como uma certeza.

Dar nome ao desencontro

Distorcer as palavras do outro é alterar-lhes o sentido. Também podemos falar em deturpar ou desvirtuar o que foi dito. Contudo, nem todos os desencontros acontecem da mesma maneira. Há distinções que nos ajudam a perceber onde a conversa se perdeu, desde que as usemos para compreender comportamentos, sem transformar pessoas em rótulos.

Na escuta defensiva, ouvimos sobretudo para nos protegermos. Uma observação chega-nos como uma acusação e começamos a preparar a defesa antes de compreender o pedido. "Gostava de contar mais contigo nesta tarefa" transforma-se, aos nossos ouvidos, em "achas que sou um irresponsável". Respondemos ao julgamento que julgámos ouvir, deixando o pedido por responder.

Na escuta seletiva, retemos uma parte da mensagem e deixamos cair o resto. Alguém diz: "Reconheço o teu esforço, mas este ponto precisa de ser revisto". Mais tarde, contamos: "Disse que o meu trabalho estava mal." O reconhecimento desapareceu e uma observação sobre um ponto passou a abranger o trabalho inteiro.

A distorção do discurso descreve essa alteração de sentido, que pode resultar de diferentes formas de escutar ou de responder. "Hoje preciso de descansar" torna-se "nunca queres estar connosco". Um pedido circunstancial passa a ser apresentado como uma rejeição permanente. Pode haver um mal-entendido, uma reação defensiva ou uma tentativa deliberada de desviar a conversa. Um episódio isolado nem sempre permite perceber o que lhe deu origem.

A falácia do espantalho, um conceito da argumentação, tem uma particularidade: substitui-se a posição do outro por uma versão deformada, mais fácil de atacar. À proposta "devíamos rever a distribuição das tarefas", responde-se: "Portanto, queres pôr os outros a trabalhar por ti". A discussão mudou de objeto. Estamos agora a combater uma proposta que ninguém apresentou.

Estas formas podem sobrepor-se. Conhecer os nomes só tem utilidade se nos ajudar a reconhecer o movimento, incluindo em nós próprios. Atirar "estás a fazer uma falácia do espantalho" à cara de alguém pode dar-nos a satisfação de dominar o vocabulário e deixar a conversa exatamente no mesmo sítio. É mais esclarecedor perguntar: "O que ouviste no que eu disse para chegares a essa conclusão?».

O que ouvimos também vem de dentro

Nenhum de nós chega vazio a uma conversa. Levamos o dia que tivemos, as preocupações que escondemos, as feridas que conhecemos e algumas de que só damos conta quando alguém lhes toca. Quem receia falhar pode escutar uma condenação num pedido de ajuda. Quem se sente pouco valorizado pode receber uma discordância como mais uma prova de desprezo. O receio merece atenção; a interpretação continua a precisar de ser confirmada.

É aqui que a maturidade nos pede trabalho. Sentir-me acusado não prova que me tenham acusado. Sentir-me rejeitado não permite concluir, por si só, que o outro me rejeitou. A emoção é real, mas não nos oferece uma transcrição fiel da conversa. Antes de responder à intenção que atribuímos a alguém, convém perguntar se a compreendemos bem.

Também há situações em que as palavras são desviadas para evitar uma responsabilidade, desacreditar quem fala ou ganhar a discussão. Não precisamos de ignorar essa possibilidade, nem de a tomar como explicação automática. Vale a pena observar o que acontece depois do esclarecimento: existe curiosidade, alguma disponibilidade para corrigir a interpretação? Ou qualquer tentativa de explicar serve apenas de matéria-prima para uma nova acusação?

Uma relação revela muito de si na maneira como permite corrigir um equívoco.

A tentação de apresentar o nosso currículo moral

Quando nos sentimos injustamente interpretados, apetece-nos aumentar o volume, repetir tudo desde o princípio e apresentar provas da nossa boa-fé desde a infância. Convocamos episódios, favores, sacrifícios, testemunhas. A conversa sobre quem ficou de fazer o jantar aproxima-se perigosamente de uma comissão parlamentar de inquérito.

É compreensível. Dói ver as nossas palavras usadas contra nós, mas o impulso de esclarecer tudo de uma vez pode tornar a conversa ainda mais confusa. Entre tantas explicações, perde-se o ponto inicial e surgem dez novos assuntos por resolver. Um episódio antigo vem confirmar uma suspeita, outro aparece para contrariar o primeiro, e acabamos a discutir anos de convivência a propósito de uma dificuldade desta manhã.

Ajuda regressar a uma frase simples: "Falei da divisão desta tarefa. Não disse que nunca fazes nada", Depois, dar espaço à resposta. Se surgir um assunto antigo, podemos reconhecer que merece atenção sem abandonar o presente: "Quero conversar contigo sobre isso. Podemos primeiro terminar o que estamos a tentar resolver agora?".

Reconhecer o que a pessoa sentiu não exige confirmar uma acusação que não fizemos. Podemos dizer: "Percebo que tenhas ouvido isto como uma crítica ao teu esforço. Quero esclarecer o que te estou a pedir". Há espaço para acolher o desconforto e, ao mesmo tempo, devolver precisão às palavras.

A serenidade precisa de espaço

Falar de inteligência emocional é fácil enquanto ninguém nos atribui uma intenção mesquinha. A dificuldade começa quando sentimos o rosto aquecer, a mandíbula prender e a resposta mais cortante do mundo ficar pronta na ponta da língua.

Nesse instante, podemos fazer uma coisa modesta: adiar a resposta alguns segundos. Pousar o copo. Sentir os pés no chão. Reparar na pressa de ferir que apareceu dentro de nós. Nenhum destes gestos resolve o conflito, mas pode ajudar-nos a escolher a frase seguinte. O que dissermos a seguir também será da nossa responsabilidade, mesmo quando nos sentimos provocados.

A serenidade pode exigir uma interrupção. "Estou demasiado alterado para continuar esta conversa com cuidado. Preciso de uma pausa. Podemos retomá-la depois do jantar?". Se propomos regressar, cabe-nos cumprir. Uma pausa ganha sentido quando protege a possibilidade de conversar; torna-se dolorosa quando deixa o outro indefinidamente à espera.

E há uma exigência injusta que convém abandonar: a de que a pessoa magoada tem de falar com uma delicadeza irrepreensível para merecer ser ouvida. Podemos ter a voz trémula, precisar de procurar palavras, chorar. A responsabilidade está no que fazemos com essa emoção, incluindo reparar uma ofensa se ela nos escapar. Ter consciência de nós próprios também significa reconhecer quando já não estamos em condições de continuar.

Escutar também é aceitar ser corrigido

Este texto seria cómodo se servisse apenas para identificar os defeitos de quem vive ou trabalha connosco. A parte menos confortável começa quando reconhecemos a rapidez com que também respondemos: "Eu sei muito bem o que quiseste dizer".

Saberemos? Ou estamos a substituir a explicação do outro pela nossa certeza?

Há uma diferença decisiva entre dizer "quando ouvi isso, senti-me diminuído" e afirmar "disseste isso para me diminuir". Na primeira frase, damos a conhecer a nossa experiência. Na segunda, reclamamos acesso à intenção alheia. Podemos ter razões para desconfiar, sobretudo quando um comportamento se repete, mas precisamos de distinguir o que observámos daquilo que concluímos.

Essa exigência vale nos dois sentidos. Quem fala também não pode refugiar-se eternamente no "não foi essa a minha intenção" para ignorar palavras humilhantes ou um tom de desprezo. A intenção conta, a forma conta e o efeito merece ser escutado. Podemos esclarecer o que pretendíamos e reconhecer, com honestidade: "Disse-o de uma maneira que te magoou. Quero reformular".

A maturidade torna-se visível nestas pequenas correções. "Ouvi uma acusação onde estavas a fazer um pedido". "Interrompi-te antes de perceber", "Fui buscar um episódio antigo e afastámo-nos do assunto". Admitir isto dá trabalho, sobretudo quando estamos habituados a confundir dignidade com ter sempre razão.

Quando esclarecer já não chega

Há conversas em que a boa vontade permite desfazer o nó. Noutras, repetimos o esclarecimento e recebemos de volta a mesma versão deformada. Nesses casos, a serenidade precisa de um limite: "Estou disponível para falar sobre o que aconteceu. Se continuarem a ser-me atribuídas palavras que não disse, vou interromper esta conversa".

No trabalho, pode ser útil confirmar por escrito o que foi pedido e acordado, com linguagem objetiva. Numa relação familiar, escolher outro momento ou procurar alguém aceite por ambos para ajudar a conversar. Quando há humilhação persistente ou medo, merece prioridade procurar apoio e condições de segurança. Ninguém deve carregar sozinho a obrigação de tornar possível uma relação em que a sua voz é constantemente desautorizada.

Podemos cuidar da clareza, reconhecer os nossos erros e oferecer tempo. A disponibilidade do outro não está inteiramente nas nossas mãos. Perceber isso poupa-nos à tarefa extenuante de procurar, sem descanso, a formulação perfeita que finalmente nos tornará dignos de escuta.

Ao fim de um dia, numa cozinha, num gabinete ou à mesa de uma família, alguém pode ainda fazer uma pergunta simples: "Espera. Foi isso que quiseste dizer?" E ficar para ouvir a resposta. Para quem já se preparava para mais uma defesa, esse pequeno lugar pode ser um descanso imenso.

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AUTORIA: José Paulo Santos 

 

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