Inveja: quando a felicidade dos outros nos dói
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| Inveja - compreender e transformar |
Há uma vergonha que raramente confessamos: receber uma boa notícia de alguém de quem gostamos e descobrir que não conseguimos alegrar-nos inteiramente. Compreender esse desconforto pode ensinar-nos a cuidar do que nos falta sem ferir quem tem aquilo que desejamos.
Imaginemos uma situação comum. Estamos à mesa com amigos quando um deles anuncia que foi escolhido para um trabalho que desejava há muito. Conhecemos o seu esforço, acompanhámos as suas dúvidas, sabemos o quanto aquela notícia significa. Felicitamo-lo, fazemos perguntas, levantamos o copo. Contudo, enquanto a conversa prossegue, sentimos um aperto difícil de admitir. Também nós temos trabalhado, esperado, tentado. A alegria daquele amigo começa a iluminar, de uma maneira incómoda, tudo o que sentimos faltar na nossa vida. No regresso a casa, surpreendemo-nos a procurar explicações que diminuam a conquista: teve sorte, conhece as pessoas certas, também não deve ser assim tão importante. O acontecimento não nos retirou nada, porém, alguma coisa em nós viveu aquela felicidade como uma perda.
A situação poderia envolver uma casa, uma relação amorosa, a tranquilidade financeira, o reconhecimento profissional ou a facilidade com que alguém parece fazer amigos. O objeto muda; o movimento interior mantém-se: olhamos para aquilo que o outro possui e passamos a olhar para nós através daquilo que nos falta. A isto chamamos inveja. A palavra pesa tanto que preferimos encontrar-lhe outro nome. Admitimos cansaço, tristeza, até raiva, mas a inveja parece comprometer a imagem de pessoas generosas que desejamos ter de nós próprios. Acrescentamos, assim, uma segunda dor à primeira: além de sofrermos com a comparação, envergonhamo-nos de sofrer.
Uma emoção que podemos sentir sem a transformar numa identidade
Será a inveja uma emoção ou um sentimento? Na investigação psicológica, é habitualmente estudada como uma emoção social, ligada à comparação com alguém cuja vantagem valorizamos. A distinção entre emoção e sentimento, porém, não é inteiramente consensual. Uma forma útil de a compreender, presente no modelo de Klaus Scherer, desenvolvido pelo prestigiado psicólogo suíço, consiste em considerar a emoção como um processo que envolve a avaliação de uma situação, alterações corporais, tendências para agir e experiência subjetiva. O sentimento corresponde à dimensão consciente dessa experiência: aquilo que reconhecemos e conseguimos dizer que estamos a sentir. Por isso, podemos estudar a inveja como emoção e falar, na linguagem corrente, de um sentimento de inveja. A diferença não se resolve simplesmente afirmando que uma dura segundos e o outro permanece durante anos.
No episódio daquele jantar, a notícia é interpretada como uma comparação desfavorável, o corpo acusa o desconforto, surge a vontade de mudar de assunto ou desvalorizar a conquista e, mais tarde, reconhecemos o que aconteceu. Compreender este processo permite uma distinção decisiva: sentir inveja não nos obriga a humilhar, sabotar ou desejar mal a ninguém. Entre a experiência e a ação existe um espaço que podemos aprender a habitar. Dizer “estou a sentir inveja” descreve o que se passa connosco; concluir “sou uma pessoa invejosa” transforma um momento numa sentença sobre a nossa identidade.
A inveja também não equivale a desejar alguma coisa. Podemos querer aprender uma língua, escrever um livro ou melhorar as nossas condições de vida sem sofrer por alguém já o ter conseguido. O desconforto invejoso aparece quando a vantagem alheia entra na avaliação que fazemos do nosso próprio valor. A pergunta deixa de ser apenas “o que desejo para a minha vida?” e passa a ser “o que diz sobre mim o facto de ele ter conseguido e eu não?”. A conquista do outro torna-se uma espécie de classificação que ninguém nos atribuiu, mas que aceitamos como se fosse definitiva.
O que a investigação nos ajuda a compreender
Num conjunto de estudos publicado em 2009, Niels van de Ven, Marcel Zeelenberg e Rik Pieters encontraram evidência para distinguir duas experiências de inveja, designadas como benigna e maliciosa. A primeira orientava-se para melhorar a própria situação; a segunda, para prejudicar ou diminuir a posição da pessoa invejada. Estas designações descrevem experiências e motivações, não duas categorias imutáveis de seres humanos. O desconforto da comparação pode acompanhar movimentos diferentes, e importa reconhecer para onde nos estamos a dirigir.
Em investigação posterior, os mesmos autores observaram que a chamada inveja benigna podia favorecer o esforço e o desempenho. Num dos estudos, esse efeito ocorreu quando os participantes consideravam possível melhorar a sua situação. Há aqui uma indicação importante, sem que dela possamos retirar uma receita universal: reconhecer um caminho ao nosso alcance pode alterar a forma como respondemos à vantagem alheia. Estes resultados não demonstram que precisamos de invejar para crescer, nem que toda a inveja se transforma facilmente em motivação. Mostram que a experiência é mais complexa do que a condenação moral costuma admitir.
Ainda assim, transformar toda a dor em mais produtividade seria uma resposta demasiado estreita. Nem sempre precisamos de trabalhar mais, alcançar mais ou chegar ao lugar do outro. Podemos precisar de rever o critério pelo qual nos avaliamos. Se a nossa serenidade depender de sermos sempre os mais reconhecidos, haverá sempre alguém cuja existência nos inquieta. Importa perguntar se desejamos realmente aquela vida ou se desejamos, sobretudo, deixar de nos sentir inferiores diante dela.
Escutar o que a inveja está a tentar dizer
A Comunicação Não Violenta oferece-nos uma maneira de explorar esta experiência sem começarmos pela acusação. Na proposta de Marshall Rosenberg, reconhecer sentimentos e necessidades ajuda a transformar julgamentos em compreensão e a procurar ações concretas. Aplicada à inveja, esta perspetiva convida-nos a investigar o que está em causa para nós: reconhecimento, segurança, pertença, realização, descanso? Trata-se de uma leitura possível da experiência, não de uma explicação única para todas as suas causas. O ponto de partida é a curiosidade por aquilo que estamos a viver.
Podemos começar por regressar aos factos. O nosso amigo anunciou uma conquista profissional. A conclusão de que ficámos para trás, de que ninguém nos valoriza ou de que nunca conseguiremos nada semelhante já pertence à interpretação. Depois, importa precisar o que sentimos: tristeza pelo que ainda não alcançámos, receio de não sermos capazes, frustração com oportunidades que não chegaram. A pergunta «o que me dói exatamente nesta notícia?» pode levar-nos mais longe do que a insistência em provar que o outro não merece o que recebeu.
Esta investigação exige honestidade. Podemos encontrar a necessidade legítima de reconhecimento, mas também o desejo de sermos reconhecidos acima de todos os outros. Não são a mesma coisa. Precisar de sentir que o nosso trabalho tem valor não significa que os colegas devam permanecer na sombra. Desejar afeto não nos concede o direito de diminuir as relações felizes dos outros. Quando conseguimos distinguir aquilo de que precisamos da competição em que o transformámos, começamos a descobrir outras possibilidades de resposta.
Convém, contudo, não usar esta reflexão para silenciar a injustiça. Há promoções marcadas por favoritismo, oportunidades distribuídas de forma desigual e trabalho que permanece sistematicamente invisível. Nem todo o desconforto perante uma vantagem alheia é inveja, e a indignação pode coexistir com ela. Reconhecer a nossa vida emocional não nos obriga a aceitar procedimentos injustos. Podemos pedir critérios transparentes, contestar uma decisão e defender direitos sem atacar a dignidade de quem beneficiou dessa decisão.
Reconhecer, interromper, escolher
Como reconhecer a inveja quando ela se esconde de nós? Podemos observar certos movimentos: a pressa em encontrar defeitos numa conquista, a necessidade de recordar os fracassos de quem foi elogiado, o alívio perante o seu revés, a vontade de retirar atenção precisamente quando essa pessoa tem motivos para celebrar. Nenhum destes sinais, isoladamente, prova que estamos a sentir inveja. São convites a parar e a perguntar o que nos move, sobretudo quando a reação se repete.
Nesse momento, não precisamos de fabricar uma alegria que ainda não sentimos. Precisamos de evitar que o desconforto decida por nós. Adiar um comentário, não partilhar uma insinuação ou abandonar por alguns instantes uma comparação repetitiva são escolhas concretas. Podemos reconhecer, em privado, que aquela notícia nos custou e dar tempo à emoção antes de responder. A sinceridade connosco próprios não exige que façamos da pessoa que celebra a responsável por nos consolar.
O passo seguinte consiste em cuidar do que identificámos. Se sentimos falta de orientação, podemos pedi-la; se desejamos desenvolver uma capacidade, podemos escolher um primeiro passo realista; se precisamos de reconhecimento profissional, podemos solicitar uma conversa sobre o nosso trabalho. Também podemos descobrir que insistimos num objetivo que já não nos pertence. Há desejos que conservamos porque um dia pareceram obrigatórios, embora a vida que hoje queremos construir tenha outro rosto.
Na escola e na família, esta aprendizagem merece começar cedo. Quando uma criança sofre porque outra recebeu um elogio, chamar-lhe invejosa pouco ajuda a compreender o que aconteceu. Podemos acolher a sua tristeza, perceber o que desejava e ajudá-la a reconhecer o mérito do colega sem concluir que ela própria vale menos. O mesmo cuidado é exigido aos adultos: se comparamos permanentemente irmãos, alunos ou colegas, estamos a organizar relações em que o reconhecimento de uns pode ser vivido como a desvalorização dos outros.
Regressemos ao jantar. O nosso amigo continua contente e a nossa vida mantém as dificuldades que tinha antes da notícia. Podemos passar os dias seguintes a diminuir a sua conquista ou aproveitar aquele desconforto para conhecer melhor um desejo, uma ferida, uma necessidade de mudança. Conseguiremos, então, felicitá-lo com maior verdade, mesmo que ainda exista tristeza pelo que nos falta. A alegria por alguém e a dor por nós podem coexistir sem que uma tenha de destruir a outra.
Amadurecer emocionalmente inclui esta honestidade pouco vistosa: reconhecer em nós aquilo que preferíamos encontrar apenas nos outros e assumir a responsabilidade pelo que fazemos a seguir. Não escolhemos sempre a primeira emoção que nos atravessa, mas podemos aprender a não lhe entregar o destino das nossas relações. O nosso amigo não precisa de perder aquilo que conquistou para que a nossa vida volte a merecer esperança.
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AUTORIA: José Paulo Santos

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