A verdade ou a mentira: o que escolher?

Os frágeis fios da confiança

A verdade nunca é divertida. Se fosse, toda a gente a diria.
— Michel Audiard, diálogo de Les Barbouzes (1964), tradução nossa.

Há uma coragem particular em dizer aquilo que pode custar-nos a aprovação de alguém. O roteirista de cinema francês, Michel Audiard (1920-1985), condensa-a nesta frase, cuja ironia nos confronta com uma fraqueza reconhecível: gostamos da verdade, desde que não perturbe demasiado a vida que organizámos à sua volta. Quando ameaça a nossa imagem, os nossos interesses ou a tranquilidade de uma relação, descobrimos um surpreendente talento para mudar de assunto.

Contudo, o incómodo não é uma prova de veracidade. Uma mentira também magoa, uma acusação injusta pode devastar-nos e um preconceito pode ser apresentado com a segurança de uma evidência. Há, por outro lado, verdades que nos devolvem o chão: “O teu trabalho ajudou-me”, “Tinhas razão”, “Gosto de estar contigo”. A alegria que despertam não as torna menos verdadeiras. Seria uma estranha conceção da honestidade aquela que só lhe reconhecesse valor quando vem acompanhada de sofrimento.

A verdade não nos torna automaticamente justos

“Estou apenas a dizer-te a verdade” é uma frase que, em certas conversas, funciona como uma porta fechada. Quem a pronuncia considera-se dispensado de examinar as próprias palavras; quem as recebe parece ficar obrigado a aceitá-las, sob pena de ser acusado de não saber ouvir.

Acontece que confundimos frequentemente os factos com a interpretação que fazemos deles. “Ontem interrompeste-me várias vezes” permite esclarecer um comportamento. “Tu nunca respeitas ninguém” transforma esse comportamento numa sentença sobre uma pessoa inteira. A irritação pode ser legítima, mas não confere rigor a todas as conclusões que dela retiramos.

Antes de falar, precisamos de perceber o que procuramos: esclarecer, estabelecer um limite, pedir uma mudança ou descarregar a nossa zanga? A sinceridade exige esse exame. Sem ele, arriscamo-nos a chamar frontalidade àquilo que é apenas uma vontade de ferir sem assumir a responsabilidade pela ferida.

Também se mente com o silêncio

A mentira nem sempre precisa de inventar alguma coisa. Pode limitar-se a esconder a parte da realidade que permitiria ao outro compreender o que se passa. Omitir deliberadamente uma informação relevante, sabendo que a sua ausência mantém alguém enganado, é uma forma de mentir. As palavras podem estar tecnicamente certas e, ainda assim, servir uma falsidade.

“Não te menti; apenas não te contei” oferece um abrigo cómodo a quem procura absolver-se. Porém, quando o que escondemos poderia alterar uma decisão, um consentimento ou a confiança que alguém deposita em nós, essa distinção pouco protege a honestidade. Estamos a permitir que a pessoa escolha com base numa realidade que nós próprios truncámos.

Também a justificação “não contei para não magoar” merece ser interrogada. Estamos a proteger o outro ou a evitar as consequências do que fizemos? Por vezes, aquilo que desejamos preservar é a imagem que ele tem de nós. Chamamos cuidado ao nosso receio de a perder.

Naturalmente, temos direito à intimidade. Ninguém está obrigado a expor cada pensamento ou a falar antes de conseguir compreender o que sente. Dizer “não quero partilhar esse assunto” estabelece um limite; esconder factos relevantes para induzir alguém em erro compromete a sua liberdade. A diferença está no que esse silêncio procura fazer à compreensão do outro.

O que fica depois da mentira

Quando alguém descobre que lhe ocultaram deliberadamente uma parte importante da realidade, a ferida ultrapassa o conteúdo daquilo que foi escondido. Atinge a confiança com que viveu, decidiu e se entregou à relação. O passado torna-se um lugar de perguntas: “O que mais desconheço? Em que momentos acreditei numa história incompleta?” Quem foi enganado pode começar a desconfiar do próprio discernimento, como se a responsabilidade estivesse na sua disponibilidade para acreditar. Convém dizê-lo com clareza: confiar em alguém não torna uma pessoa culpada do engano de que foi alvo.

Também quem mente precisa de se interrogar sobre aquilo que faz à sua própria consciência. Quando reconhece que está a enganar e continua, aceita uma desigualdade: reserva para si o conhecimento da realidade e deixa o outro viver dentro da versão que lhe convém. Que maturidade existe em evitar uma conversa difícil transferindo para outra pessoa o custo desse adiamento? Que respeito oferecemos quando decidimos, sem o seu conhecimento, aquilo que ela pode saber sobre a própria vida?

Um ato não esgota o caráter de uma pessoa, mas a repetição das escolhas participa na sua construção. Mentir, justificar a mentira e culpar o outro por a ter descoberto revela uma forma de agir que precisa de ser confrontada. A consciência perde exigência quando se habitua a encontrar desculpas para aquilo que condenaria nos outros. A maturidade começa quando conseguimos reconhecer: “Fiz isto, sabia que te estava a esconder algo importante e sou responsável pelas consequências.” Sem esse reconhecimento, o pedido de desculpa pode servir apenas para recuperar depressa o conforto perdido.

A confiança pode ser reconstruída, embora não regresse por ordem de quem a quebrou. Exige que o engano cesse, que os factos relevantes sejam esclarecidos e que haja disponibilidade para ouvir a dor causada sem a desvalorizar. Precisa sobretudo de coerência ao longo do tempo: compromissos cumpridos, respostas honestas e respeito pelos limites de quem foi magoado. Perdoar não obriga a voltar a confiar, nem a permanecer numa relação. Quem deseja reparar tem de aceitar que o outro conserva a liberdade de partir; essa liberdade faz parte do respeito que a mentira lhe retirou.

A coragem de dizer e de escutar

Se queremos relações verdadeiras, precisamos também de observar como recebemos aquilo que nos desagrada. Pedimos sinceridade, mas permitimos a discordância? Conseguimos ouvir a admissão de um erro sem a guardar como arma para a próxima discussão? Não somos responsáveis pelas mentiras alheias, embora sejamos responsáveis pelo espaço que damos à verdade nas nossas conversas.

Cuidar das palavras não significa enfraquecer o que precisa de ser dito. “Não aceito que me insultes” é claro e firme. “Não quero continuar esta relação” pode causar uma dor profunda e ser necessário. O cuidado exige que falemos sem humilhar, assumindo o que sabemos, o que sentimos e o que decidimos.

Entre a verdade e a mentira, escolho a verdade, incluindo aquela que me obriga a reconhecer as minhas omissões e os meus enganos. É fácil defender a honestidade quando ela expõe as falhas dos outros. A escolha torna-se séria quando chega a nossa vez de dizer: “Há uma coisa que preciso de te contar.”

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AUTORIA: José Paulo Santos 

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