Que amor construímos quando falta a verdade?

 

A verdade que nos liga

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
 
[Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa]

Imaginemos esta conversa ao fim do dia. Uma pessoa descobre, por acaso, algo que a outra sabia há semanas e escolhera não partilhar. Quando lhe pergunta porquê, recebe uma resposta que a deixa ainda mais desamparada: “Porque sabia que ias ficar assim.” Além de ter sido mantida na ignorância, vê agora a sua dor usada para justificar a omissão. A conversa afasta-se do que aconteceu e passa a girar em torno da sua reação, como se o problema estivesse na mágoa de quem descobre e não na escolha de quem escondeu.

É neste instante que importa perguntar onde reside a confiança, em que atos se reconhece, que linguagem a sustenta e que postura a torna possível. Dizer “podes confiar em mim” custa pouco enquanto nada põe à prova essa promessa. A exigência começa quando a verdade nos expõe, nos contraria ou nos obriga a assumir uma responsabilidade que preferíamos evitar. Está então em causa a imagem que o outro tem de nós, a comodidade de uma situação ou a possibilidade de continuarmos a fazer aquilo que sabemos que precisaria de ser discutido. A confiança ganha consistência no que escolhemos fazer perante esse desconforto, sobretudo quando ninguém está a verificar.

A verdade começa na relação connosco

Há uma honestidade anterior à conversa entre duas pessoas, que acontece quando conseguimos olhar para os nossos atos sem os acomodar numa explicação conveniente. Sabíamos que aquele assunto tinha importância, mas evitámos abordá-lo porque não queríamos enfrentar as consequências. Prometemos uma coisa e fizemos outra, fomos adiando um esclarecimento, deixámos que o outro continuasse a acreditar numa versão que já não correspondia ao que se passava. Reconhecer isto em nós custa, porque nos retira o abrigo das boas intenções e nos confronta com aquilo que efetivamente fizemos.

Esse trabalho íntimo exige maturidade. Temos uma notável capacidade para nos descrevermos pelas nossas intenções e avaliarmos os outros pelos seus comportamentos: a nossa omissão teve circunstâncias, enquanto a do outro revela falta de carácter; o nosso silêncio foi prudência, mas o dele já nos parece deslealdade. Assim preservamos uma boa opinião sobre nós, embora à custa de uma lucidez que faz falta à relação. Enquanto estivermos ocupados a encontrar razões para tudo o que fazemos, dificilmente teremos disponibilidade para compreender o que provocamos em quem vive connosco.

O respeito por nós mesmos começa também na recusa desse privilégio. Se considero a honestidade indispensável para me entregar a alguém, preciso de a praticar, em qualquer circunstância, quando ela me incomoda, pois a dignidade pessoal compromete-me com a palavra que dou. É nesse compromisso que se torna necessário perguntar se a pessoa que sou quando ninguém me vê é compatível com aquela que apresento a quem me ama. Podemos falhar, sentir vergonha ou não saber imediatamente como falar sobre o que nos acontece; contudo, essas dificuldades não nos dispensam de procurar uma forma de o fazer, nem tornam o outro responsável pelas nossas escolhas.

Os atos, a linguagem, a postura

A confiança encontra-se em gestos concretos, por vezes discretos, que dão consistência à vida comum. Partilhar uma informação relevante antes de ela ser descoberta, cumprir o que foi acordado ou reconhecer que já não conseguimos cumpri-lo são maneiras de respeitar o lugar do outro. O mesmo acontece quando trazemos para a conversa uma dúvida capaz de alterar a relação, em vez de esperarmos que ela se resolva sozinha enquanto o outro continua a fazer planos. Ao partilharmos aquilo que lhe diz respeito, permitimos-lhe compreender a vida em que participa e decidir, com conhecimento, como deseja vivê-la.

Também a linguagem revela a nossa disponibilidade para sermos honestos. Quem diz “escolhi não te contar” assume uma decisão, ao passo que “não te contei porque tu complicas tudo” coloca essa decisão às costas de quem ficou sem saber. A diferença tem consequências na conversa: no primeiro caso, há espaço para esclarecer o que aconteceu e reconhecer a mágoa; no segundo, a pessoa magoada vê-se obrigada a defender-se de uma acusação antes de conseguir uma resposta. E, enquanto se discute o seu feitio, a pergunta que fez permanece por responder.

A postura prolonga o que as palavras anunciam. Percebe-se na capacidade de escutar sem revirar os olhos, de responder ao que foi perguntado e de permanecer no assunto, mesmo quando ele nos deixa desconfortáveis. É precisamente aí que surge, tantas vezes, o “mas tu também…”, seguido de um episódio antigo, de uma frase infeliz ou de um erro que a memória guardou e agora devolve como acusação. A conversa passa a acumular dívidas, enquanto aquilo que precisava de ser esclarecido fica por resolver. Quem procurava uma resposta vê-se obrigado a defender-se e acaba, frequentemente, por recorrer ao mesmo expediente, acrescentando outra recordação à disputa. A tensão cresce porque cada um tenta demonstrar que o outro tem menos legitimidade para se sentir magoado.

As situações passadas podem precisar de atenção, sobretudo quando deixaram feridas ou revelam comportamentos que se repetem. Merecem, por isso, uma conversa em que possam ser compreendidas, em vez de serem convocadas à pressa para nos livrarem de responder pelo presente. Quando o “mas tu também…” se torna uma resposta habitual, o reconhecimento de uma falha fica sempre dependente da confissão do outro, como se só pudéssemos assumir o que fizemos depois de provar que estamos em boa companhia. A maturidade exige que consigamos interromper esse movimento e reconhecer: “Isso também precisa de ser falado, e quero ouvir-te sobre o que te magoou. Agora, preciso de responder pelo que fiz ou disse.” Sem esta disponibilidade, os conflitos vão ficando por resolver e regressam à discussão seguinte, cada vez mais carregados de tudo o que nunca chegou a ser verdadeiramente escutado.

A harmonia precisa de chão

Uma relação harmoniosa precisa de poder atravessar a discordância. A ausência de discussões diz pouco quando um dos dois desconhece aquilo que, se soubesse, precisaria de discutir. Pode haver tranquilidade numa casa onde certas conversas nunca chegam a acontecer, mas convém perceber de que é feita essa tranquilidade e quem a paga. Se depende de manter alguém desinformado, apenas quem conhece toda a situação a escolheu; o outro vive nela por acreditar que nada de relevante lhe está a ser ocultado.

Fazer da verdade um pilar do amor significa aceitar que o outro tem direito a conhecer a realidade que lhe diz respeito, mesmo quando ela nos desfavorece. Isso não elimina a intimidade de cada pessoa, nem exige a exposição de todos os pensamentos, recordações ou confidências. Exige, porém, clareza sobre os compromissos que envolvem ambos, o que implica conversar sobre limites e expectativas, em vez de presumir que o amor os torna evidentes. Um acordo deixa de oferecer segurança quando uma das pessoas o cumpre e a outra o altera em silêncio.

A honestidade pede igualmente cuidado, porque dizer a verdade não nos dispensa de escolher o momento, de encontrar palavras respeitosas e de reconhecer o impacto do que revelamos. Esse cuidado, no entanto, perde o sentido quando serve para adiar indefinidamente uma conversa. Há sempre um dia cansativo, uma preocupação urgente, uma ocasião que parece desadequada; entretanto, o tempo passa e o outro continua a decidir com base no que julga saber. Amar alguém exige que reconheçamos o momento em que já estamos a proteger o nosso conforto à custa da sua confiança.

No fundo, queremos poder descansar junto de quem amamos, acreditar numa palavra sem precisar de lhe procurar uma segunda versão e fazer uma pergunta sem recear que a resposta esconda o essencial. Esse descanso constrói-se ao longo dos dias, na coerência entre o que prometemos e o que fazemos, mas também na coragem de reconhecer quando nos afastámos dessa coerência. Por isso, o respeito que devemos a nós mesmos prolonga-se naturalmente no respeito por quem organiza a sua vida confiando em nós.

Quem nos ama confia-nos uma parte dos seus dias, das suas escolhas e do seu futuro. Quando lhe escondemos uma verdade que lhe diz respeito, decidimos por nossa conta sobre esse tempo irrepetível, enquanto o outro continua a chamar “nossa” à vida que acredita estarmos a construir em conjunto.

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AUTORIA: José Paulo Santos

 

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