Se a alma não existe, o que nos falta quando ela falta?

 

Na Alma da Luz


Farás da alma que não existe um homem melhor do que ela. | René Char

"Esta casa não tem alma", dizemos, apesar dos móveis escolhidos e da luz perfeita. Noutra, um livro aberto, uma cadeira antiga e a disponibilidade de quem nos recebe bastam para nos sentirmos acolhidos. Não descobrimos uma presença sobrenatural. Reconhecemos algo humano. Mas foi à palavra "alma" que recorremos para explicar a diferença.

Pedimos que alguém coloque a alma num projeto, sentimos uma dor de alma, encontramos alma numa música. Até quem duvida da sua existência fala dela com familiaridade. O que procuramos nomear: uma entidade imortal, a nossa intimidade ou a qualidade da presença que oferecemos ao mundo?

O poeta francês, René Char, escreveu: "Tu feras de l’âme qui n’existe pas un homme meilleur qu’elle." Numa tradução próxima: "Farás da alma que não existe um homem melhor do que ela." Podemos ler neste paradoxo uma interpelação: mesmo sem demonstrarmos a existência da alma, a ideia que fazemos dela pode comprometer-nos com uma maneira mais humana de viver.

Uma pergunta antiga, respostas diferentes

Os filósofos da Antiguidade não nos deixaram uma resposta única. No Fédon, Platão apresenta a alma como distinta do corpo e capaz de lhe sobreviver. Aristóteles entende-a como princípio das capacidades de um corpo vivo: também as plantas e os animais têm alma nesse sentido. Para Epicuro, ela é material, constituída por átomos, e dispersa-se com a morte. A palavra aproxima-os; aquilo que significa separa-os.

Essa diferença continua a importar. Uma alma imortal, a consciência de nós mesmos e o ambiente de uma casa são realidades distintas. Usar a mesma palavra não prova que tenham a mesma natureza. E invisível não significa inexistente, embora a invisibilidade também não seja prova de existência.

Na filosofia contemporânea, Merleau-Ponty ajuda-nos a reconhecer uma interioridade inseparável da experiência corporal. Percebemos e habitamos o mundo através do corpo. Basta pensar na voz que treme, na mão que procura outra, no rosto que se ilumina com uma chegada. Aquilo que sentimos intimamente ganha expressão em gestos que os outros podem receber.

André Comte-Sponville, por sua vez, defende a possibilidade de uma espiritualidade sem Deus: perder a fé religiosa não obriga a renunciar à vida do espírito, ao amor ou à abertura ao mundo. Podemos divergir sobre o que existe para além da vida e continuar a perguntar, juntos, como queremos vivê-la.

A alma que os outros encontram em nós

Quando pedimos a alguém que coloque a alma no que faz, desejamos encontrar ali atenção, envolvimento, uma presença pessoal. A expressão ganha sentido naquilo que produzimos e na maneira como nos relacionamos. Mas merece cuidado: colocar a alma num projeto não pode significar esgotar-se até deixar de ter vida fora dele.

Também dizemos que alguém tem "uma alma bonita". Em que nos apoiamos? Nas palavras generosas? Na facilidade com que se emociona? Esses sinais não dispensam a atenção aos seus atos. Podemos falar de amor e tornar impossível a discordância. Podemos elogiar a escuta e interromper quem tenta explicar uma mágoa.

Procurar a alma em nós exige olhar para a distância entre aquilo que julgamos ser e aquilo que os outros vivem na nossa presença. Conseguimos reconhecer um erro sem nos refugiarmos numa desculpa? Escutar uma verdade que nos desagrada? Cuidar de alguém quando não há reconhecimento à nossa espera?

Não se trata de exigir pureza. A raiva, a inveja ou o ressentimento pertencem à experiência humana. Reconhecê-los permite-nos escolher o que fazemos com eles. A nossa responsabilidade começa onde deixamos de transformar o sofrimento que sentimos numa autorização para ferir.

Continuamos sem uma resposta consensual sobre a existência da alma. Entretanto, alguém fala connosco, uma promessa espera ser cumprida, uma pessoa regressa a casa receando a maneira como será recebida. A dúvida metafísica não suspende estes encontros.

Não sei se acolher alguém prova a existência da alma. Sei que podemos abrir uma porta de maneira a que ninguém se sinta a mais.

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AUTORIA: José Paulo Santos 

 

 

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