A Biblioteca Escolar não pode ser jamais um lugar de castigo

Biblioteca Escolar: um abrigo de paz e leitura

Imaginemos um aluno à porta da biblioteca. Traz o caderno debaixo do braço, o rosto fechado e uma ordem que o acompanha desde a sala de aula: foi mandado para ali porque se portou mal, informa a Assistente Operacional à responsável da Biblioteca Escolar. Do outro lado, alguém passou a manhã a escolher livros, a preparar uma atividade, um exposição, uma efeméride, a procurar maneiras de fazer entrar quem ainda não descobriu o prazer de ler. Encontram-se à mesma porta duas intenções que a escola deveria ter dificuldade em conciliar: uma convida; a outra manda cumprir pena.

O aluno entra. Antes de abrir qualquer livro, já recebeu uma mensagem sobre o lugar onde está.

Nas escolas onde a biblioteca é utilizada como destino punitivo para alunos retirados da aula, esta contradição merece uma discussão séria. Até podemos compreender o cansaço de quem toma essa decisão e questionar o seu sentido pedagógico. A familiaridade de uma prática não a torna sensata. Por vezes, apenas nos habitua a deixar de reparar no que fazemos.

E há uma pergunta que convém colocar desde o início: quantas vezes recomendamos a biblioteca a um aluno porque reconhecemos o seu interesse, respeitamos a sua necessidade de concentração ou queremos ajudá-lo a ir mais longe?

O que fica depois do castigo

Um professor precisa de condições para ensinar, isto é bem claro. Os alunos precisam de conseguir ouvir, participar e trabalhar sem interrupções constantes, sem provocações ou medo. Há comportamentos que exigem uma intervenção firme e situações em que a permanência de um aluno na sala se torna, naquele momento, difícil de sustentar. Quem conhece a vida de uma escola sabe quanto desgaste pode caber numa aula e quanta solidão pode sentir um professor diante de um conflito que se repete.

Reconhecer esse desgaste obriga-nos a procurar respostas que o apoiem. Obriga-nos também a perguntar o que acontece depois de o aluno atravessar a porta.

Afastá-lo pode interromper uma perturbação. Fica por fazer o trabalho de compreender o sucedido, responsabilizar quem causou o dano e preparar o regresso. Quando a resposta se esgota em encaminhá-lo para a biblioteca escolar, onde ficará a cumprir um tempo determinado, arriscamo-nos a confundir a resolução de um conflito com a sua mudança de endereço.

O problema pode prolongar-se muito para além daquela aula. Ao associarmos repetidamente a biblioteca ao castigo, corremos o risco de ensinar uma aversão que sobreviva à própria escolaridade. A criança cresce; a experiência de ter sido enviada para ali contra a sua vontade pode continuar ligada àquele espaço. O que para nós representa conhecimento e liberdade pode passar a significar, para ela, censura, vergonha ou tempo de vida confiscado.

Não podemos afirmar que todo o aluno castigado numa biblioteca será um adulto que a rejeita. As experiências posteriores também contam e uma relação pode transformar-se. Podemos, porém, reconhecer o risco pedagógico: contribuir para que alguém se afaste de um lugar ao qual gostaríamos que regressasse ao longo da vida.

É um preço demasiado alto para uma solução de ocasião.

Ensinar alguém a não voltar

Imaginemos esse aluno anos depois, já adulto, diante de uma biblioteca pública. Não sabemos se entrará. Importa perguntar, no entanto, se a escola lhe deu razões para o fazer. Terá conhecido a alegria de descobrir um autor, a ajuda atenta de quem sabe orientar uma pesquisa, o sossego de uma mesa onde conseguiu pensar? Ou recordar-se-á sobretudo de ter estado sentado à espera de autorização para sair?

A biblioteca que encontra é outra. A recordação que leva consigo pode ser a mesma.

Há uma perda difícil de medir nesta possibilidade. Um adulto que evita bibliotecas deixa de usufruir de um espaço onde poderia ler, estudar, procurar informação, participar em atividades ou simplesmente encontrar condições que não tem em casa. Esse afastamento pode também reduzir as oportunidades de as dar a conhecer aos filhos. Uma decisão tomada para resolver os últimos vinte minutos de uma aula merece, por isso, ser pensada à luz de uma vida inteira.

A escola não controla o futuro de ninguém. Tem, contudo, responsabilidade pelas experiências com que apresenta o mundo às crianças. Quando transforma um espaço de cultura num lugar de punição, pode estar a dificultar um encontro que lhe cabia favorecer.

Depois, numa semana dedicada aos livros, pedimos aos mesmos alunos que acreditem que ler é um prazer. A contradição merece mais atenção do que um cartaz bonito consegue reparar.

O silêncio de que alguns alunos precisam

Pensemos agora noutro aluno. Não perturbou ninguém. Está a tentar compreender uma matéria, mas perde-se a cada interrupção. Ou terminou uma tarefa e gostaria de aprofundar uma questão que o interessou. Precisa de consultar fontes, comparar explicações, preparar um trabalho com a atenção que dificilmente encontra num ambiente agitado. Pode até viver numa casa onde não dispõe de uma mesa só para si ou de sossego para estudar.

Que lugar lhe oferecemos? A biblioteca deveria estar entre as primeiras possibilidades que a escola lhe apresenta. Recomendá-la pode ser uma forma concreta de atenção pedagógica: reconhecer que aquele aluno precisa de outras condições para trabalhar e que a sua curiosidade merece tempo.

Imaginemos um professor a dizer-lhe: "Essa pergunta merece que vás mais longe. Vamos ver o que podes descobrir na biblioteca." Há confiança neste convite. O aluno recebe a possibilidade de investigar, de escolher recursos, de desenvolver autonomia com orientação. A biblioteca passa, então, a fazer parte do seu percurso de aprendizagem, em articulação com os docentes e com o professor bibliotecário.

Também o silêncio adquire outro significado. Quem procura concentrar-se precisa de poder reler uma passagem, encontrar uma palavra, acompanhar uma ideia até ao fim. Há uma diferença profunda entre ser obrigado a estar calado e poder, finalmente, pensar sem interrupções.

Naturalmente, uma biblioteca escolar acolhe conversas, encontros, trabalho colaborativo e atividades. Não se pretende impor-lhe uma quietude permanente. Importa organizar espaços e momentos que permitam conciliar essas funções, para que a necessidade de concentração encontre uma resposta tão legítima como a necessidade de participação.

A gratificação de poder aprender

É neste sentido que a biblioteca pode e deve ser vivida como um lugar de gratificação. A satisfação de compreender o que antes parecia inacessível. O prazer de encontrar um livro que nos prende. O reconhecimento de que uma pergunta nossa mereceu atenção. A experiência, tão simples e tão decisiva, de conseguir trabalhar bem.

Convém preservar este sentido da palavra: a biblioteca pertence a todos. O seu acesso não deve depender de uma nota, de um comportamento exemplar ou da aprovação de um adulto. Transformá-la num prémio reservado aos "bons alunos" criaria outra forma de exclusão. O que se procura é que a experiência de a frequentar seja gratificante e que a escola a apresente como uma oportunidade desejável.

Um aluno com dificuldades precisa de poder entrar sem sentir que a sua presença denuncia uma insuficiência. Quem deseja aprofundar conhecimentos precisa de encontrar estímulo. Quem ainda não gosta de ler precisa de poder aproximar-se sem receber imediatamente uma obrigação. E quem procura alguns minutos de tranquilidade merece que essa necessidade seja levada a sério.

Se a escola só encaminha para a biblioteca quem perturbou a aula, deixa por reconhecer todos aqueles que poderiam beneficiar dela precisamente porque querem aprender e precisam de condições para o fazer. [José Paulo Santos]

O trabalho paciente de abrir uma porta

Os Professores Bibliotecários conhecem a delicadeza deste encontro. Há crianças que chegam rodeadas de histórias e outras para quem um livro continua associado à dificuldade, à avaliação ou à vergonha de ler em voz alta. Há jovens que precisam de escolher sem serem imediatamente corrigidos na escolha, de folhear sem prestar contas, de abandonar um livro e experimentar outro e outro e outro…

Uma sugestão feita com atenção, a liberdade de percorrer uma estante ou a ajuda na pesquisa de um assunto podem iniciar uma relação duradoura. É um trabalho paciente, por vezes discreto, que merece a coerência de toda a comunidade educativa.

A Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) tem sublinhado esta dimensão de acolhimento, inclusão e bem-estar, associando-a aos projetos e às relações que se constroem na biblioteca. É nesse horizonte que o trabalho dos seus profissionais ganha sentido.

Usar esse espaço como lugar de punição contraria esse esforço. Ao professor bibliotecário pede-se que sustente a hospitalidade de um lugar ao qual a própria escola atribuiu, naquele momento, uma função punitiva. A sua disponibilidade corre ainda o risco de ser confundida com a obrigação de receber os conflitos que não encontraram resposta noutro sítio.

Quem trabalha para que os alunos queiram entrar na Biblioteca Escolar não deveria ter de desfazer, todos os dias, as razões pelas quais alguns só desejam sair.

Acolher quem errou, preparar o regresso

Um aluno que perturbou uma aula continua a pertencer à escola e à sua biblioteca. Pode precisar particularmente de um adulto disponível, de tranquilidade ou de uma experiência em que não seja reduzido à pior coisa que fez naquele dia. A questão é saber em que condições chega, para quê e como é recebido.

Pode fazer sentido que a biblioteca participe numa resposta educativa articulada, com acompanhamento e objetivos claros. Essa participação deve respeitar a sua missão, as condições dos profissionais e o direito dos restantes utilizadores a estudar. Mudar o nome do castigo, mantendo tudo o resto, não resolve a contradição.

Também não basta entregar uma ficha sobre o comportamento e esperar que o tempo produza reflexão. A responsabilização exige acompanhamento: reconhecer o sucedido, compreender os seus efeitos e encontrar formas de reparação. O regresso à turma precisa de ser preparado. O professor que viveu o conflito precisa de apoio.

É sobre estas respostas que a comunidade educativa deve conversar. Nessa conversa, importa discutir também os encaminhamentos positivos: facilitar o acesso de quem precisa de concentração, articular pesquisas com as disciplinas, dar continuidade a um interesse que nasceu numa aula. A biblioteca merece estar presente nas possibilidades que oferecemos aos alunos, muito antes de surgir entre os destinos que lhes impomos.

Voltemos agora à criança que ficou à porta. Gostaria que, anos depois, pudesse entrar numa biblioteca sem sentir que regressava a um castigo vincado na alma. Que levasse consigo uma pergunta, um desejo de leitura ou a necessidade de encontrar sossego. E que, se um filho lhe perguntasse o que iam ali fazer, tivesse uma boa recordação para lhe oferecer.

Estamos a educar também esse futuro adulto. Convém que, entre tudo o que leva da escola, não leve a vontade de nunca mais voltar a uma Biblioteca.

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AUTORIA: José Paulo Santos 

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