Ninguém Ensina a Amar os Livros por Obrigação


Ninguém ensina a amar livros por obrigação

Há dias em que uma entrevista não nos deixa apenas a pensar sobre o tema de que fala. Obriga-nos a regressar às perguntas fundamentais e preocupantes.

Foi o que senti ao ler as declarações de Regina Duarte, antiga comissária do Plano Nacional de Leitura, na entrevista do jornal Expresso (30 julho 2026), quando questionou o elevado número de livros de leitura obrigatória nas escolas. A discussão instalou-se rapidamente. Uns defenderam a exigência curricular. Outros a liberdade de escolha. Porém, creio que a verdadeira questão esteja noutro lugar. Vamos pensar juntos...

Pergunto: como nasce, afinal, um leitor? A resposta parece simples. Mas é tudo menos simples.

Há muitos anos que, enquanto professor, formador, escritor, pai, observo alunos que chegam à escola trazendo mundos completamente diferentes. Alguns cresceram rodeados de livros. Outros nunca tiveram uma pequena biblioteca em casa. Uns falam naturalmente dos livros que os pais lhes leram antes de adormecer. Outros nunca viveram esse ritual.

E, no entanto, esperamos que todos descubram o prazer da leitura da mesma forma.

Este é o nosso primeiro equívoco. A leitura não começa na escola. Começa muito antes. Começa no útero. Começa no colo. Começa na voz. Começa no olhar. Começa naquela história contada sem pressa, devagarinho, quando ainda ninguém pensa em avaliações, programas ou exames.

Os neurocientistas recordam-nos hoje aquilo que muitos pais sempre souberam intuitivamente: o cérebro humano desenvolve-se através da relação. Antes de aprender a decifrar letras, a criança aprende a decifrar rostos, entoações, silêncios, afetos. É nesse espaço de segurança emocional que a curiosidade floresce.

Também os livros chegam primeiro através do vínculo. Só depois chegam através das palavras.

Na Comunicação Não Violenta falamos frequentemente da diferença entre estratégia e necessidade. Ler é uma estratégia, mas a necessidade é muito mais profunda.

Precisamos de significado. Precisamos de pertença. Precisamos de beleza. Precisamos de sermos vistos. Precisamos de sentir que aquilo que fazemos faz sentido para a nossa vida.

Quando uma criança recusa um livro, talvez não esteja a rejeitar a leitura. Está apenas a dizer-nos que ainda não encontrou um livro que dialogue com o seu mundo. Ou que nunca viu um adulto verdadeiramente apaixonado por ler, porque ninguém aprende entusiasmo através da obrigação.

Aprendemos entusiasmo por contágio. As crianças não fazem aquilo que lhes dizemos. Fazem aquilo que nos veem fazer. Podemos até repetir dezenas de vezes que ler é importante, mas, se passarmos todas as noites agarrados ao telemóvel, essa será a verdadeira mensagem que receberão.

Os filhos escutam muito mais os nossos gestos do que as nossas palavras.

Talvez por isso devêssemos perguntar menos quantos livros são obrigatórios na escola e perguntar mais quantos livros vivem realmente nas nossas casas.

Não como objetos decorativos, mas como companheiros. Como presença quotidiana. Como parte da vida. Quantas famílias, na verdade, possuem uma biblioteca vasta nas nossas aldeias, nas nossas cidades, no nosso país? Quantos pais colhem nas suas estantes esses livros e mostram aos seus filhos que, realmente, possuem hábitos de leitura constante?

Há países que compreenderam isto há muito tempo. Na Finlândia, nos Países Baixos ou no Reino Unido, a promoção da leitura começa ainda antes da entrada na escola. As bibliotecas trabalham com centros de saúde, jardins de infância e famílias. Oferecem livros aos bebés. Criam momentos de leitura entre pais e filhos. Fazem da leitura uma experiência afetiva antes de ser uma competência académica.

Porquê? Perceberam uma verdade bem simples: uma sociedade leitora não se constrói apenas com bons professores. Constrói-se com bons modelos. Constrói-se quando visitar uma biblioteca é tão natural como ir ao parque. Quando oferecer um livro é um gesto de carinho. Quando uma criança cresce convencida de que as histórias dos livros fazem parte da vida.

Na Comunicação Não Violenta aprendemos que não é possível obrigar alguém a cooperar de forma autêntica. A cooperação nasce quando as necessidades são reconhecidas e respeitadas.

A leitura acontece exatamente o mesmo. Ninguém pode ser obrigado a amar um livro. Podemos obrigar alguém a ler páginas, mas não podemos obrigá-lo a encontrar nelas um lugar para viver.

Esse encontro pertence ao mistério da liberdade. Obviamente, podemos preparar o terreno. Podemos criar casas onde existam livros. Podemos ler em voz alta. Podemos conversar sobre personagens como quem conversa sobre amigos. Podemos entrar numa livraria sem a ansiedade de comprar alguma coisa. Podemos fazer dos livros um lugar de encontro e não de avaliação.

A primeira biblioteca de uma criança nunca é a escola. É o coração dos adultos que vivem com ela.

Essa é essa a maior responsabilidade que todos partilhamos. Não ensinar a ler, mas mostrar, pelo exemplo, que há vidas que só podem ser plenamente vividas quando abrimos um livro e deixamos que alguém nos conte uma história.

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Autoria: José Paulo Santos 

 

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