Antes da Aula, Entra o Professor


A Comunicação Não Violenta como pedagogia da presença

A qualidade da escola depende, antes de mais, da qualidade da presença humana de quem nela educa. [José Paulo Santos]

Há dias em que um professor entra na sala de aula já cansado, antes mesmo de pronunciar a primeira palavra. Não porque tenha deixado de gostar de ensinar. Nem porque os alunos sejam particularmente difíceis. Entra cansado, porque transporta consigo muito mais do que uma pasta, um computador ou um conjunto de planificações. Traz reuniões que ficaram por terminar, plataformas que aguardam preenchimento, pais preocupados, colegas inquietos, decisões difíceis, problemas familiares dos alunos que ouviu no dia anterior e aquela fadiga silenciosa que raramente aparece em qualquer relatório educativo.

Ainda assim, sorri.

Escreve a data no quadro.

Cumprimenta a turma.

E a aula começa.

Ou, pelo menos, parece começar, porque, muito antes da primeira palavra, já entrou na sala outra realidade, invisível e decisiva: o estado interior do professor.

É essa presença que os alunos leem primeiro.

Muito antes de ouvirem a matéria, observam o olhar, a voz, a postura, a disponibilidade, a serenidade, ou a tensão, do adulto que têm diante de si. A aprendizagem começa muito antes dos conteúdos. Começa na relação.

Durante décadas debatemos currículos, programas, exames, metodologias, autonomia, flexibilidade curricular, tecnologias e, mais recentemente, inteligência artificial. Todos estes temas são importantes. Mas talvez tenhamos deixado por formular uma pergunta anterior a todas elas:

Quem cuida daquele que cuida?

Quem ensina o professor a reconhecer o momento em que a exaustão começa lentamente a transformar-se em impaciência? Quem o ajuda a perceber que um conflito raramente nasce quando um aluno responde de forma desadequada? Muitas vezes, esse conflito começou muito antes: numa noite mal dormida, numa reunião difícil, numa sucessão de pequenas tensões acumuladas que ninguém viu.

Thomas d'Ansembourg lembra-nos uma verdade de enorme simplicidade: antes da comunicação existe a consciência.

Esta afirmação deveria ocupar um lugar central na formação inicial e contínua dos docentes. Ensinar não consiste apenas em transmitir conhecimentos. Ensinar é, todos os dias, oferecer uma forma de estar perante o erro, a diferença, a frustração, a autoridade, a dúvida e o conflito.

Um aluno entra atrasado.

O professor interrompe a explicação.

— «Outra vez?»

O aluno responde num tom provocador. Os colegas riem. Em poucos segundos, instala-se aquilo que todos conhecemos: um conflito.

Habitualmente procuramos identificar o culpado. Quem começou? Quem faltou ao respeito? Quem deve ser sancionado?

A Comunicação Não Violenta convida-nos a deslocar o olhar.

E se perguntássemos, antes de tudo:

Que necessidade humana ainda não encontrou palavras para se expressar?

O professor poderá necessitar de respeito, cooperação e condições para ensinar. O aluno poderá precisar de pertença, de reconhecimento, de autonomia, de escuta e tolerância ou simplesmente de ser visto para além daquele comportamento.

Nenhum dos dois consegue ainda dizê-lo.

E é precisamente nesse espaço de necessidades invisíveis que o conflito nasce.

Esta mudança de perspetiva não elimina a responsabilidade nem substitui as regras da escola. Também não significa aceitar comportamentos inadequados. Significa compreender que todo o comportamento é uma tentativa, por vezes desajeitada, por vezes agressiva, de responder a uma necessidade humana.

Quando compreendemos isto, deixamos de combater pessoas para começarmos a cuidar de relações. Talvez seja esta a maior revolução pedagógica que a Comunicação Não Violenta nos oferece.

Ao longo de décadas habituámo-nos a pensar que autoridade significava controlo. Mas a experiência mostra-nos outra realidade. Os alunos distinguem rapidamente o professor que impõe silêncio daquele que inspira silêncio. Um necessita de elevar continuamente a voz. O outro raramente o faz. A diferença não reside na personalidade nem no temperamento. Reside na qualidade da presença.

A verdadeira autoridade nasce da coerência interior. Nasce quando aquilo que pensamos, sentimos, dizemos e fazemos deixa de estar em permanente contradição.

É por isso que Thomas d'Ansembourg utiliza uma expressão extraordinária: higiene da consciência.

Preparar aulas faz parte da profissão. Atualizar conhecimentos científicos também. Frequentar formação contínua é indispensável. Mas quem prepara diariamente o lugar de onde nascem todas as palavras do professor?

Um docente atravessa dezenas de encontros humanos todos os dias. Recebe ansiedade, frustração, agressividade, medo, entusiasmo, esperança, tristeza e alegria. Se nada disto encontrar um espaço de elaboração, acumula-se silenciosamente.

E, um dia, já não responde apenas o professor daquele instante. Respondem também todos os dias anteriores que nunca tiveram oportunidade de ser escutados.

Talvez esteja aqui uma das maiores fragilidades da escola contemporânea. Cuidamos dos currículos com enorme rigor. Avaliamos resultados, monitorizamos indicadores, produzimos estatísticas e relatórios. Mas continuamos a investir muito pouco na competência que sustenta todas as outras: a capacidade de cada professor permanecer presente quando tudo à sua volta o convida a reagir.

A paz na escola não começa quando desaparecem os conflitos. Começa quando aprendemos uma nova forma de os atravessar. Não há comunidade educativa sem divergências. Nunca houve. Nunca haverá. O problema não é a existência do conflito. O problema é aquilo que fazemos com ele. Podemos transformá-lo numa escalada de acusações ou numa oportunidade de compreensão. Podemos responder ao comportamento ou procurar compreender a necessidade que o alimenta. Podemos vencer uma discussão e perder uma relação. Ou podemos preservar a relação sem abdicar da firmeza.

É neste equilíbrio delicado que reside a verdadeira autoridade pedagógica. Talvez seja por isso que a Comunicação Não Violenta não deva ser entendida como uma técnica de comunicação. É, antes de tudo, uma pedagogia da presença.

Uma pedagogia que recorda ao professor que ninguém pode oferecer serenidade se vive permanentemente em guerra consigo próprio. Que ninguém consegue ensinar respeito apenas através de discursos. E que nenhuma estratégia pedagógica será suficientemente poderosa, se o adulto que a aplica perdeu a capacidade de se escutar a si mesmo.

No final de cada aula, os alunos esquecerão muitos conceitos, datas, fórmulas e definições. Faz parte da aprendizagem. Mas dificilmente esquecerão a forma como um professor os fez sentir.

Talvez esse seja, afinal, o currículo invisível da escola.

E talvez seja precisamente aí, nesse território silencioso onde se encontram consciência, relação e humanidade, que a Comunicação Não Violenta revela todo o seu poder transformador. 

Educar nunca foi apenas transmitir conhecimento. Educar é, antes de mais, ensinar uma maneira de estar no mundo.

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Autoria: José Paulo Santos | Formador em CNV

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