Comunicar para Incluir: a Comunicação Não Violenta como caminho para a interculturalidade
No passado dia 9 de julho de 2026, tive a oportunidade de participar no Seminário Internacional Caminhos de Interculturalidade, promovido pelo Agrupamento de Escolas de Oliveira do Bairro, sob o lema“Escolas que acolhem, Comunidades que transformam”. A minha intervenção integrou o Painel II – Comunicar para Incluir: Linguagem, Cultura e Mediação Intercultural, dedicado à reflexão sobre os desafios da diversidade cultural e linguística nas escolas portuguesas, diante de uma plateia de mais de 200 professores, no Quartel das Artes de Oliveira do Bairro.
A comunicação, intitulada “Comunicar para incluir: estratégias de mediação linguística e Comunicação Não Violenta em contextos escolares multiculturais”, procurou estabelecer pontes entre a experiência da mediação linguística e cultural e os princípios da Comunicação Não Violenta (CNV) desenvolvida por Marshall Rosenberg.
Parti de uma convicção simples, mas profundamente transformadora: o conflito não é violência. O conflito é uma consequência natural da diversidade de opiniões, interesses, valores e necessidades humanas. A violência surge quando não possuímos vocabulário emocional, empatia ou consciência suficientes para transformar as tensões em diálogo.
Ao longo da apresentação, em pouco mais de 10 minutos permitidos, devido ao atraso dos trabalhos, procurei demonstrar como muitas escolas continuam presas a um paradigma centrado na lógica de "quem tem razão", alimentando julgamentos, culpabilizações e respostas punitivas. Em contraponto, a Comunicação Não Violenta convida-nos a desenvolver uma cultura baseada na responsabilidade, na escuta, na empatia e na satisfação das necessidades humanas universais.
Recorri à metáfora do iceberg da comunicação escolar, mostrando que aquilo que observamos, comportamentos, agressividade, desinteresse ou conflitos, é apenas a parte visível de uma realidade muito mais profunda. Sob a superfície encontram-se sentimentos como medo, frustração, vergonha ou ansiedade e, mais abaixo ainda, necessidades humanas não atendidas de pertença, reconhecimento, segurança, autonomia ou ligação.
Defendi igualmente que o papel do Mediador Linguístico e Cultural (MLC) não consiste em decidir quem tem razão, mas em ajudar as pessoas a mergulharem abaixo das suas "trincheiras" culturais, ideológicas ou emocionais, para reencontrarem aquilo que todas partilham: necessidades humanas comuns.
Num contexto educativo marcado por uma crescente diversidade de nacionalidades, culturas e percursos migratórios, torna-se fundamental compreender que os conflitos são frequentemente choques de estratégias e não de necessidades. As culturas podem ser diferentes, mas os seres humanos continuam a procurar segurança, respeito, pertença, reconhecimento, comunicação, aprendizagem e dignidade
Apresentei também os quatro pilares da Comunicação Não Violenta: observação, sentimento, necessidade e pedido, como uma bússola prática para construir relações mais inclusivas e mais humanas dentro e fora da escola.
Através de exemplos concretos, ligados a situações de racismo, incompreensão cultural e conflitos em sala de aula, procurei demonstrar que uma resposta centrada na punição tende apenas a reprimir sintomas, enquanto uma resposta baseada na empatia ativa permite compreender a dor subjacente e transformar verdadeiramente as relações.
A comunicação terminou com uma mensagem simples, mas essencial: a inclusão não nasce da imposição nem da uniformidade. Nasce da capacidade de criar ligação humana. Quando aprendemos a escutar para além dos comportamentos e dos julgamentos, começamos a descobrir aquilo que nos une. E é nesse espaço comum que a verdadeira educação intercultural acontece.
Como recordei nas palavras finais, inspiradas pelo poeta sufi Rumi:
“Para além do certo e do errado existe um lugar. Encontrar-nos-emos lá.”
Num tempo em que as escolas acolhem alunos de origens cada vez mais diversas, acredito que a Comunicação Não Violenta não é apenas uma ferramenta pedagógica. É uma forma de olhar o outro. Uma prática de consciência. Um exercício de humanidade.
Porque, no fundo, o conflito não é o fim da linha. É o solo fértil onde a inclusão acontece.
| Presidente da Câmara e o Diretor do Agrupamento de Escolas de Oliveira do Bairro |
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| Biografia de José Paulo Santos |
Um agradecimento especial pela excelência da Organização e em especial à Ana Prata pelo convite.



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