E se todas as escolas de Portugal tivessem mediadores de conflitos?


A geografia secreta do recreio

O que poderia mudar na vida de professores, alunos e famílias se a Mediação e a Comunicação Não Violenta fizessem parte do quotidiano escolar.

 

A geografia secreta do recreio

Há uma idade em que atravessar um recreio pode exigir mais coragem do que aquela que, anos depois, será necessária para atravessar uma fronteira. De uma ponta à outra, poucos metros: um grupo junto ao muro, dois rapazes à entrada do pavilhão, uma gargalhada que tanto pode não ter destinatário como ser uma sentença. Os adultos veem um recreio. A criança conhece-lhe a geografia inteira, os lugares onde pode demorar-se, aqueles onde convém passar depressa. Aprendeu-a sem que ninguém lha ensinasse. E, quando finalmente entra na sala, ouve: “Estás outra vez distraída.”

Penso muitas vezes no que pedimos a uma criança quando lhe pedimos atenção. Que arrume, em poucos segundos, tudo o que lhe está a acontecer. Que encontre a página, a caneta, a resposta. Nós próprios, adultos, somos tão pouco capazes de semelhante proeza. Uma palavra atravessada ao pequeno-almoço acompanha-nos até à noite; uma injustiça ocupa-nos por dentro durante semanas. Mas à criança, porque tem o corpo pequeno e uma mochila às costas, pedimos que esteja pronta às nove.

O professor que a recebe também chegou de algum lugar. Traz a vida consigo, embora raramente lhe reconheçam esse direito. Pode ter deixado a mãe doente, passado a noite a corrigir trabalhos, conduzido em silêncio depois de uma discussão. Abre a porta e precisa de estar inteiro. Há qualquer coisa de profundamente comovente nesta tentativa diária de tantas pessoas para se apresentarem inteiras umas diante das outras, quando algumas mal conseguiram reunir os pedaços.

Uma decisão à medida das pessoas

É a partir daqui que gostaria de imaginar uma decisão política.

Suponhamos que o Ministério da Educação, Ciência e Inovação garantia a presença regular de mediadores de conflitos em todas as escolas do país e criava condições para que a Comunicação Não Violenta entrasse na sua vida quotidiana. Com tempo, formação, profissionais preparados, continuidade. Gostaria de saber o que aconteceria ao fim de alguns anos. Sobretudo, gostaria de conhecer as pequenas mudanças que não chegariam aos discursos: um professor que deixava de sentir um aperto no estômago antes de entrar numa turma; uma aluna que voltava a ir à cantina; um pai que, pela primeira vez, saía de uma reunião sem sentir que tinha estado no banco dos réus.

Quem conhece a escola sabe quanto sofrimento pode caber numa ocorrência escrita em meia página. “O aluno recusou.”, “A aluna respondeu.”, “O professor determinou.” Os verbos ficam alinhados, o sucedido adquire uma aparência arrumada. Depois, cada um regressa à sua vida com aquilo que o documento não consegue guardar. A vergonha. A fúria. O receio de voltar à sala no dia seguinte. A convicção de que ninguém percebeu nada.

Um mediador teria de poder permanecer junto dessa parte inacabada. Ouvir separadamente, voltar a perguntar, compreender o que se repetiu, distinguir um desentendimento de uma situação de violência, ajudar a construir uma resposta e acompanhar o que viesse depois. Esse trabalho pede preparação e uma coisa cada vez mais difícil de obter: disponibilidade. Há conversas que só começam verdadeiramente quando a pessoa percebe que não estamos à espera de que termine.

Quem escuta o professor?

Para o professor, saber que alguém acompanha o conflito permitiria recuperar algum espaço interior para ensinar. E também para sentir. Temos sido pouco generosos com a vulnerabilidade dos docentes. Exigimos-lhes humanidade, mas estranhamos que se magoem; queremos que sejam próximos, mas esperamos que nada os atinja. Um insulto pode doer. A exposição diante de uma turma pode doer. Regressar no dia seguinte e reencontrar os mesmos rostos pode exigir um esforço que ninguém vê. A Comunicação Não Violenta começa a perder o sentido se só nos lembrarmos dela para recomendar ao professor que tenha mais paciência.

Uma criança maior do que o seu pior gesto

Ao longo do meu contacto com a CNV, tenho regressado a esta ideia: antes de ser uma maneira diferente de falar, é uma maneira diferente de ver. E ver uma pessoa implica resistir à pressa de a dar por conhecida. O “aluno impossível” chega a uma nova aula precedido por essa definição; ainda não abriu a boca e já esperamos dele a confirmação. A certa altura, até os seus gestos mais inocentes ficam sob suspeita. É difícil crescer quando os adultos já decidiram aquilo em que nos tornámos.

Isto em nada diminui a responsabilidade pelo que se faz. Um aluno que agride tem de ser interrompido. O colega agredido precisa de proteção concreta. Haverá consequências e trabalho de reparação, quando este for possível e adequado. Mas precisamos de conservar a capacidade de olhar para quem agrediu sem lhe fechar todas as saídas. É justamente por acreditarmos que pode agir de outra maneira que lhe exigimos essa mudança.

E precisamos de cuidar muito da palavra “reconciliação”. Dita por um adulto, pode tornar-se uma ordem. Não quero uma escola onde a criança ferida tenha de abraçar quem a magoou para tranquilizar os presentes. Há um tempo que lhe pertence, um receio que merece ser levado a sério, um “não quero” que deve poder pronunciar. Perante intimidação continuada ou desigualdade de poder, a mediação pode não ser a resposta adequada. A competência de um mediador revela-se também aí: na lucidez de reconhecer os limites da sua intervenção.

As famílias também chegam com a sua história

Imagino as famílias a entrarem, aos poucos, neste trabalho. Com resistências, naturalmente. Há pais que chegam preparados para defender o filho antes de saberem o que aconteceu; há escolas que recebem um pai como se a sua inquietação fosse já uma ameaça. Sentam-se à mesma mesa e cada um começa a construir a sua defesa. Entretanto, a criança, que justificou o encontro, vai desaparecendo da conversa.

Como seria se conseguíssemos voltar a trazê-la para o centro? A criança concreta, contraditória, capaz de ternura e de crueldade, de generosidade e de medo. Aquela que precisa de ser amada também no dia em que fez alguma coisa grave. Reconhecer que um filho magoou alguém não nos obriga a abandoná-lo; obriga-nos a acompanhá-lo num lugar mais difícil da educação. E a escola, se pretende ajudar, precisa de saber falar com uma família sem a reduzir ao problema que a trouxe ali.

Penso ainda em quem chega de outro país e procura decifrar esta escola. As siglas, os formulários, as mensagens, os silêncios. O pai que concorda porque não encontrou as palavras para perguntar. A mãe que falta porque não conseguiu trocar o turno. O aluno que aprende depressa a traduzir para os adultos da família e acaba a transportar preocupações demasiado pesadas para a sua idade. A articulação entre mediadores de conflitos e mediadores linguísticos e culturais permitiria compreender melhor estas vidas. Há distâncias que se encurtam quando alguém se demora a explicá-las.

Escutar obriga a mudar alguma coisa

Mas a escola teria de aceitar ser olhada por inteiro. A CNV não poderia ficar reservada às crianças, como uma espécie de bons modos incluídos no projeto educativo. Teria de chegar à reunião onde um professor é interrompido com desprezo, à assistente operacional a quem se fala de qualquer maneira, à distribuição de tarefas que recai sempre sobre os mesmos. Os alunos apercebem-se destas coisas. Aprendem connosco o valor de uma pessoa, observando a liberdade com que permitimos que seja maltratada.

Também seria preciso ter a honestidade de reconhecer o que a escuta não resolve. Não substitui profissionais em falta, não reduz turmas, não devolve horas de descanso. Se tudo continuar igual depois de ouvirmos alguém dizer que já não aguenta, essa pessoa acabará por desconfiar da nossa delicadeza. A escuta compromete-nos. Por vezes, a consequência mais séria de uma conversa é uma decisão sobre horários, recursos ou condições de trabalho.

Ficar a brincar até tocar

Não imagino uma escola serena a toda a hora. Desconfiaria dela. Haveria zangas, portas fechadas com força, palavras de que alguém se arrependeria mais tarde. Continuaríamos humanos, felizmente capazes de nos aproximarmos depois de termos falhado. O que desejaria era uma escola onde esse regresso fosse acompanhado, onde houvesse lugar para dizer o que custou e para decidir o que fazer a seguir.

Ao fim de alguns anos, pediria que se avaliasse esta política com rigor. E, entre as perguntas necessárias, guardaria uma para a criança do recreio: “Como têm sido os teus intervalos?”.

Escutaria a resposta sem a apressar. Poderia falar-nos de um adulto a quem já consegue pedir ajuda. De um colega que passou a esperá-la junto à porta. Ou contar, com a ligeireza de quem não sabe a importância do que está a dizer, que agora costuma ficar a brincar até tocar.

Era também para isso que teríamos mudado a escola.

_________________

AUTORIA: José Paulo Santos

 

Comentários