Antes de aprender a comunicar, comecei a aprender a escutar-me

 

Livro Seja Verdadeiro de Thomas D'Ansembourg

Em 2006, um livro marcou o início do meu percurso na Comunicação Não Violenta. Vinte anos depois, Seja Verdadeiro, de Thomas d’Ansembourg, continua a representar um convite exigente: compreender o que acontece dentro de nós para podermos encontrar verdadeiramente os outros.

Há livros que ficam associados a uma época da nossa vida. Outros acompanham-nos na maneira como passamos a vivê-la. Seja Verdadeiro, de Thomas d’Ansembourg, pertence, para mim, a este segundo grupo. Foi em 2006 que esta obra marcou o início do meu percurso na Comunicação Não Violenta, abrindo um caminho de leitura, reflexão e aprendizagem que continuo a percorrer enquanto professor, formador e pessoa.

Thomas d’Ansembourg é um autor, conferencista e formador belga em Comunicação Não Violenta. Antigo advogado e consultor jurídico, trabalhou também com jovens em dificuldades e formou-se em diferentes abordagens psicoterapêuticas, incluindo a CNV de Marshall Rosenberg. Em livros como Seja Verdadeiro, convida-nos a reconhecer os nossos sentimentos e necessidades e a construir relações mais autênticas e conscientes.  

Publicado em Portugal pela Ésquilo, em 2003, o livro (esgotado) aborda a dificuldade de nos exprimirmos com autenticidade quando nos habituámos a corresponder às expectativas dos outros. D’Ansembourg explora a relação entre o desconhecimento das nossas necessidades, as máscaras sociais e a violência que pode instalar-se na comunicação quotidiana. É uma proposta que nos obriga a abrandar: antes de procurarmos a frase certa para corrigir alguém, precisamos de compreender o que nos leva a querer corrigi-lo.

Uma das aprendizagens que associo a este encontro é a diferença entre dizer ao outro tudo o que pensamos dele e conseguir comunicar aquilo que se passa connosco. Podemos pronunciar muitas verdades sobre os defeitos alheios e permanecer quase inteiramente calados sobre os nossos medos, a nossa tristeza ou a necessidade de sermos escutados. A acusação oferece-nos uma proteção momentânea; reconhecer a própria vulnerabilidade exige uma coragem mais discreta.

Como professor e formador, encontro nesta reflexão uma pergunta que permanece atual: quando um comportamento me perturba, consigo observar o que aconteceu antes de definir quem é o aluno? E, nas relações pessoais, consigo dizer que preciso de atenção sem transformar essa necessidade numa censura? Estas perguntas não se resolvem por termos lido um livro, frequentado uma formação ou aprendido os quatro componentes da CNV. Regressam nas situações em que estamos cansados, magoados ou convencidos de que temos toda a razão.

É também por isso que leio este livro como um ponto de partida, sem lhe pedir que explique todos os conflitos. A consciência individual é indispensável, mas existem desigualdades, relações de poder e condições de vida que exigem respostas coletivas. Escutar-nos com honestidade deve tornar-nos mais capazes de reconhecer essas realidades e de agir sobre elas.

Vinte anos depois, continuo a recomendar esta leitura a professores, pais, educadores e a quem deseja compreender melhor a sua maneira de estar com os outros. Ser verdadeiro exige aprender a expressar o que sentimos, a reconhecer os nossos limites e a assumir responsabilidade pelas palavras que escolhemos. A autenticidade ganha profundidade quando inclui o cuidado com quem nos escuta.

O meu percurso em CNV começou, em 2006, com este livro. A aprendizagem continua sempre que consigo interromper uma reação e perguntar o que está a acontecer em mim e na pessoa que tenho diante de mim. Há livros cujo lugar mais importante acaba por ser esse: o pequeno intervalo em que ainda podemos escolher como vamos tratar alguém.

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