Quando a opinião deixa de comunicar: uma leitura pela Comunicação Não Violenta
As redes sociais democratizaram a palavra. Mas nem toda a palavra democratiza o diálogo. [José Paulo Santos]
Há algo profundamente inquietante na forma como o debate público tem vindo a degradar-se, não porque as pessoas discordem — a discordância é indispensável à democracia —, mas porque cada vez mais se substitui a crítica das ideias pela desqualificação da pessoa.
A publicação na página do Facebook de Maria JoãoMarques, comentadora da SIC Notícias, sobre a participação do professor e ensaísta António Carlos Cortez, num debate televisivo sobre exames nacionais (17.07.2026), constitui um exemplo interessante para refletirmos, não sobre quem tem razão na discussão educativa, mas sobre a qualidade ética da linguagem utilizada.
A Comunicação Não Violenta (CNV), desenvolvida por Marshall Rosenberg, oferece-nos um instrumento particularmente útil para esta análise.
O primeiro princípio da CNV: separar observação de julgamento
A publicação começa por uma observação factual: "Não parou de interromper as duas mulheres..."
Se tal aconteceu, estamos perante uma descrição de um comportamento observável. Contudo, imediatamente a seguir, abandona-se a observação para entrar no território dos rótulos:
- "falta de noção"
- "ego"
- "malcriado"
- "machista"
- "previsível"
- "completamente idiota"
- "sua alteza".
Nenhuma destas expressões descreve comportamentos concretos. Todas interpretam, julgam ou etiquetam a pessoa.
Na linguagem da CNV existe uma diferença enorme entre dizer:
"Interrompeu várias vezes as outras intervenientes."
e afirmar:
"É um machista."
Na primeira frase, descreve-se um comportamento.
Na segunda, define-se uma identidade.
E quando transformamos uma pessoa numa identidade negativa, fechamos imediatamente qualquer possibilidade de diálogo.
O perigo dos diagnósticos morais
Rosenberg chamava-lhes "diagnósticos morais". São frases que atribuem defeitos de carácter ao outro em vez de explicarem aquilo que observámos.
É um mecanismo muito comum:
- és arrogante
- és ignorante
- és narcisista
- és ridículo
- és fascista
- és woke
- és machista.
Curiosamente, estes rótulos surgem tanto na esquerda como na direita. Mudam apenas as palavras escolhidas. O mecanismo psicológico é exatamente o mesmo. Em vez de procurarmos compreender comportamentos, reduzimos o outro a uma etiqueta.
A partir daí já não dialogamos com uma pessoa. Dialogamos com um estereótipo criado por nós.
A violência que parece legítima
Existe uma forma de violência particularmente perigosa. É aquela que acredita estar do lado do bem.
Na publicação, pretende defender-se o respeito pelas mulheres. Esse objetivo é legítimo. Mas será que insultar alguém promove uma cultura de respeito?
A questão merece reflexão, porque existe uma contradição frequente no espaço público:
combatemos a violência verbal recorrendo... à violência verbal. Combatemos a humilhação... humilhando. Combatemos a intolerância... recusando escutar.
Quando isto acontece, o conteúdo da mensagem perde força. A forma torna-se mais ruidosa do que a substância.
A responsabilidade acrescida das figuras públicas
Todos temos direito à indignação. Todos podemos sentir irritação perante comportamentos que nos incomodam. A CNV nunca pede que deixemos de sentir. Pede apenas que sejamos responsáveis pela forma como transformamos sentimentos em linguagem.
Quando essa linguagem parte de uma comentadora televisiva, jornalista ou figura pública, a responsabilidade cresce exponencialmente, porque milhares de pessoas aprendem, por imitação, que esta é uma forma aceitável de discutir.
E é precisamente assim que a violência verbal se normaliza. Primeiro aparecem os rótulos. Depois a ridicularização. Mais tarde a desumanização.
A história mostra-nos demasiadas vezes este percurso.
No perfil público de Facebook, seguido por mais de 14 mil pessoas, Maria João Marques apresenta uma frase curiosa:
"No meu mural, não se sinta como em sua casa."
É uma escolha legítima. Cada pessoa define as regras do seu espaço digital. mas esta frase suscita uma reflexão que vai muito além do Facebook, porque a verdadeira questão talvez não seja se os outros se sentem "em casa" no seu mural.
A verdadeira questão é outra:
Como pode alguém sentir-se em casa quando transforma o insulto numa forma de argumentação?
A Comunicação Não Violenta ensina-nos que a linguagem nunca é neutra. Cada palavra aproxima ou afasta. Humaniza ou desumaniza. Constrói pontes ou levanta muros.
Quando uma publicação abandona a crítica de comportamentos para qualificar a pessoa como "malcriada", "machista", "completamente idiota" ou "sua alteza", já não estamos perante uma análise crítica. Estamos perante aquilo que Marshall Rosenberg designava por juízos moralizadores: rótulos que substituem a observação e fecham qualquer possibilidade de diálogo.
Há aqui uma ironia difícil de ignorar. Quem afirma não querer que os outros "se sintam em sua casa" parece, simultaneamente, sentir-se perfeitamente à vontade para entrar na dignidade do outro sem pedir licença.
E essa é uma diferença fundamental. Uma página de Facebook pode ter dono, mas a dignidade humana não.
A liberdade de expressão protege o direito de criticar ideias, argumentos e comportamentos. Não exige que a crítica seja acompanhada pela humilhação da pessoa.
Na perspetiva da Comunicação Não Violenta, o problema não é discordar. O problema é acreditar que a força de um argumento aumenta à medida que diminuímos quem está do outro lado.
Na realidade, acontece precisamente o contrário. Quanto mais recorremos ao insulto, menos necessidade demonstramos de argumentar. Talvez, por isso, a frase do perfil pudesse inspirar uma pergunta mais profunda, dirigida a todos nós:
Será que a nossa consciência se pode sentir verdadeiramente "em casa" quando a linguagem deixa de servir o encontro entre pessoas para passar a servir a desqualificação do outro?
Essa é a pergunta que a Comunicação Não Violenta nos convida a fazer, não apenas sobre esta publicação, mas sobre a cultura comunicacional que estamos, todos os dias, a construir.
O que diria a Comunicação Não Violenta?
Imaginemos que a mesma indignação era expressa segundo os princípios da CNV.
Poderia dizer algo como:
"Durante o debate observei várias interrupções dirigidas às outras participantes. Quando isso aconteceu senti desconforto e frustração, porque valorizo debates em que todas as pessoas possam concluir o seu raciocínio. Gostaria que existisse maior respeito pelos tempos de intervenção."
Nada disto elimina a crítica. Pelo contrário. Torna-a mais rigorosa. Mais credível. Mais difícil de contestar, porque discute comportamentos. Não destrói pessoas.
O custo invisível
Talvez o problema maior das redes sociais seja este: cada insulto publicado parece morrer no instante seguinte, mas não morre. Alguém lê. Alguém aprende. Alguém imita. Alguém conclui que, para vencer uma discussão, basta diminuir quem pensa de modo diferente.
E assim vamos educando uma cultura onde o argumento perde valor e a humilhação ganha aplausos.
A violência verbal raramente começa com grandes discursos de ódio. Começa com pequenos insultos socialmente aceites. Com sarcasmos. Com rótulos. Com comentários que recebem centenas de "gostos" porque parecem inteligentes.
A Comunicação Não Violenta lembra-nos precisamente o contrário. Cada palavra constrói o tipo de sociedade onde queremos viver. Podemos discordar profundamente das ideias de alguém. Podemos até considerar o seu comportamento inadequado. Podemos ainda criticar duramente uma intervenção pública.
Mas, no momento em que deixamos de falar sobre aquilo que a pessoa fez para passarmos a definir aquilo que ela é, já não estamos a comunicar. Estamos apenas a julgar. E talvez a pergunta mais importante não seja se António Carlos Cortez interrompeu ou não as restantes participantes.
A pergunta verdadeiramente transformadora é outra: que tipo de sociedade estamos a construir, em cumplicidade, quando o insulto passa a ser considerado uma forma legítima de argumentação?
Vejam como a linguagem do ódio se partilha, se gosta, se adora, mais do que a bondade, a sensatez, o equilíbrio:
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