Quando as cores desaparecem: por que escrevi A Lira Sonhadora e o Arco-Íris Eterno
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| Capa do livro infantil A Lira Sonhadora e o Arco-íris Eterno |
Há livros que se escrevem com a razão. Outros nascem da memória. E há aqueles que parecem escrever-nos a nós próprios.
A Lira Sonhadora e o Arco-Íris Eterno pertence, para mim, a esta última categoria.
Embora seja o meu primeiro livro destinado ao público infantil e juvenil, nunca o imaginei como um livro "apenas para crianças". Acredito que todos os grandes livros infantis são, na verdade, livros para pessoas de todas as idades. As crianças lêem a história. Os adultos descobrem nela aquilo que, entretanto, foram esquecendo.
Vivemos num tempo extraordinariamente competente a produzir tecnologia, eficiência e velocidade. Nunca viajámos tão depressa, nunca comunicámos tanto, nunca tivemos acesso a tanta informação.
E, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos corrido tanto o risco de perder as cores.
As cores da curiosidade.
As cores da escuta.
As cores da empatia.
As cores da contemplação.
As cores da imaginação.
Na Comunicação Não Violenta aprendemos que toda a violência começa muito antes das palavras. Começa quando deixamos de ver o outro. Quando deixamos de reconhecer as nossas próprias necessidades. Quando o medo ocupa o lugar da criatividade. Quando o julgamento substitui a curiosidade. Quando a pressa se torna o idioma dominante das nossas vidas.
Foi precisamente essa inquietação que deu origem a Lira.
Na história, uma menina vive numa cidade onde as cores desapareceram, sugadas pela pressa e pelo esquecimento dos sonhos. Não é difícil reconhecer, nesta cidade imaginária, muitos lugares bem reais. Escolas onde já não há tempo para perguntar. Famílias que vivem esmagadas pelos horários. Crianças rodeadas de ecrãs, mas privadas de silêncio. Adultos que aprenderam a resolver problemas, mas desaprenderam a imaginar possibilidades.
As cidades não perdem verdadeiramente as suas cores por falta de tinta.
Perdem-nas quando deixam de cultivar humanidade.
É então que Lira encontra o pincel mágico herdado da avó.
Não escolhi esse objeto por acaso.
As avós representam frequentemente aquilo que a sociedade contemporânea parece esquecer: o tempo lento, a transmissão da memória, a escuta paciente, a presença sem urgência. O pincel simboliza exatamente isso: a capacidade de cada geração oferecer à seguinte instrumentos para recriar o mundo, e não apenas para o consumir.
Quando Lira atravessa a fronteira para Elysium, entra num território onde a imaginação não é um luxo, mas uma forma de conhecimento.
A imaginação não é fantasia no sentido de evasão.
É a capacidade profundamente humana de conceber aquilo que ainda não existe.
Toda a ciência começou por imaginar.
Toda a obra de arte começou por imaginar.
Toda a mudança social começou por imaginar.
Toda a reconciliação começou por imaginar que o outro poderia deixar de ser inimigo.
Também a Comunicação Não Violenta exige imaginação.
É preciso imaginar que um conflito pode terminar sem vencedores nem vencidos.
É preciso imaginar que alguém que grita poderá estar apenas a tentar proteger uma necessidade profundamente humana.
É preciso imaginar que existe sempre mais do que uma narrativa.
É preciso imaginar futuros onde hoje apenas vemos impasses.
Por isso, talvez o verdadeiro antagonista deste livro não seja o medo.
É o cinismo.
O cinismo que nos convence de que nada mudará.
Que sonhar é ingenuidade.
Que criar é perda de tempo.
Que a ternura pertence à infância.
Que a beleza não resolve problemas.
Ora, a História demonstra precisamente o contrário.
As grandes transformações humanas começaram quase sempre por parecerem impossíveis.
Foram imaginadas antes de serem construídas.
A literatura infantil possui, por isso, uma responsabilidade imensa.
Não deve apenas ensinar comportamentos.
Deve preservar a capacidade de espanto.
Uma criança que aprende a maravilhar-se diante de uma história dificilmente aceitará um mundo completamente desprovido de beleza. Uma criança que desenvolve imaginação aprende também a colocar perguntas, a procurar alternativas, a reconhecer emoções e a compreender diferentes perspetivas.
Em última análise, aprende a dialogar.
E dialogar é talvez a mais elevada expressão da paz.
Este livro nasce dessa esperança.
Da convicção de que educar não consiste apenas em transmitir conhecimentos, mas em alimentar mundos interiores suficientemente ricos para resistirem ao medo, ao conformismo e à indiferença.
Gostaria, por isso, de agradecer publicamente às pessoas que caminharam comigo nesta aventura.
Nenhum livro nasce verdadeiramente sozinho. Antes de chegar às mãos dos leitores, precisa de encontrar quem acredite nele, quando ainda é apenas uma promessa, um manuscrito, uma possibilidade.
Quero, por isso, expressar a minha profunda gratidão à Lagartixa Editora (Grupo Editorial Divergência), que acolheu este projeto desde o primeiro momento com entusiasmo, confiança e sensibilidade. Num tempo em que publicar literatura infantil é também um ato de coragem editorial, a Lagartixa acreditou que a história de Lira merecia ganhar vida e encontrar o seu caminho junto das crianças, das famílias, dos educadores, das escolas. Essa confiança constitui uma responsabilidade acrescida e um motivo de enorme reconhecimento.
Ao extraordinário ilustrador Camilo Pineda, cuja arte não ilustra apenas as palavras: amplia-as, interpreta-as e oferece-lhes novas possibilidades de leitura.
À tradutora Maria de Lurdes Brito, pelo rigor e pela sensibilidade com que tornou possível esta edição bilingue, em Português e Espanhol, permitindo que esta história possa atravessar novas fronteiras e encontrar outros leitores.
À revisora Ana Sofia Melo, cuja inteligência, exigência e delicadeza continuam a ser uma presença indispensável em cada livro que publico.
A todos eles, a minha profunda gratidão.
Tenho igualmente a alegria de anunciar que A Lira Sonhadora e o Arco-Íris Eterno se encontra já em pré-lançamento e que pode, desde já, encomendar. Veja aqui:
Assim como nos livreiros:
Dentro de poucos dias divulgarei a data, o local e a hora da apresentação oficial.
Espero que este livro encontre muitas crianças, mas, sobretudo, espero que encontre muitos adultos dispostos a reencontrar a criança que permanece, silenciosamente, dentro de si, porque é essa criança quem ainda sabe uma verdade essencial:
o mundo não muda apenas pelas ideias que acumulamos; muda, sobretudo, pelas cores que somos capazes de devolver uns aos outros.
A Comunicação Não Violenta começa muito antes das palavras. Começa na capacidade de imaginar a humanidade do outro. Essa é a primeira missão da literatura infantil: ensinar-nos a olhar antes de julgar, a escutar antes de responder, a criar antes de desistir.
Se A Lira Sonhadora e o Arco-Íris Eterno conseguir despertar, numa única criança, ou num único adulto, o desejo de voltar a acreditar que a beleza, a imaginação, o sonho e a bondade são forças capazes de transformar o mundo, então este livro já terá encontrado a sua verdadeira casa.
Os arco-íris não aparecem apenas no céu. Também nascem quando um ser humano devolve cor à vida de outro.
Há, ainda, um pequeno segredo que não quero revelar.
Quem olhar atentamente para a capa descobrirá uma frase que talvez desperte alguma curiosidade: "Um livro para ler e desenhar!"
| A Lira Sonhadora: um livro para ler e desenhar |
Não é um detalhe gráfico. Também não é um simples convite para ocupar o tempo com lápis de cor.
Faz parte da própria filosofia desta obra.
Acredito que um livro não termina na última página. Um bom livro continua dentro do leitor, convocando-o a imaginar, a criar, a acrescentar aquilo que o autor nunca escreveu. Ler é um encontro; desenhar é responder a esse encontro com a linguagem silenciosa da imaginação.
Não direi mais, porque há livros que se fecham quando chegamos à última página.
Este só começa verdadeiramente quando alguém pega num lápis.
Prefiro que sejam as crianças, e os adultos que as acompanham, a descobrir por si próprios por que motivo este livro guarda espaço para essa possibilidade. Algumas descobertas perdem a magia quando são explicadas antes do tempo.
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AUTORIA: José Paulo Santos

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