Magazine XYZ: Quando uma Revista Escolar Revela a Alma de uma Escola
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| Capa do Magazine XYZ Agrupamento Escolas de Canedo |
Uma reflexão sobre o Magazine XYZ do Agrupamento de Escolas de Canedo e a importância de comunicar com cultura, pensamento e humanidade.
Antes de mais, gostaria de fazer uma declaração de interesse.
Há alguns meses fui convidado a colaborar no Magazine XYZ, publicação do Agrupamento de Escolas de Canedo. Aceitei de imediato esse desafio, não apenas pela honra do convite, mas porque reconheci, desde o primeiro momento, que se tratava de um projeto que procurava pensar a escola para além do quotidiano, dando voz à reflexão, à cultura e à dimensão humana da educação.
Ao escrever sobre um tema que me acompanha há muitos anos e que hoje ocupa um lugar central na minha atividade como formador, cronista e autor: a Comunicação Não Violenta na Escola e na Gestão Escolar. É um paradigma que procuro desenvolver nas ações de formação acreditadas pelo Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua, mas também nas conferências, neste blogue, nas minhas crónicas e, sobretudo, na forma como procuro viver as relações humanas, porque acredito profundamente que a Comunicação Não Violenta não pertence apenas à escola. Pertence ao casal, à família, às organizações, às empresas, aos serviços públicos e à sociedade como um todo. Onde existem pessoas, existem relações. E onde existem relações, existe sempre a possibilidade de comunicar de forma mais consciente, mais respeitadora e mais humana.
| A Solidão dos Professores e a CNV |
Foi neste contexto que tive a oportunidade de publicar o artigo «A Solidão dos Professores: comunicar para incluir também quem ensina», nas páginas 8 a 11 desta edição. Nesse texto procuro refletir sobre um dos maiores desafios da escola contemporânea: cuidar das relações entre aqueles que diariamente cuidam dos outros. Defendo que a Comunicação Não Violenta não constitui apenas um conjunto de técnicas de comunicação, mas uma verdadeira cultura relacional, capaz de transformar a sala de aula, a liderança escolar, o trabalho colaborativo entre docentes, a relação com as famílias e, em última análise, toda a comunidade educativa.
Acredito que não foi por acaso que este tema encontrou lugar neste magazine. Pelo contrário. A própria publicação testemunha uma visão de escola que privilegia a reflexão, a escuta, o diálogo e a valorização das pessoas. Ao longo das suas páginas encontramos professores, diretores, encarregados de educação e outros colaboradores a pensar a educação para lá do imediato, procurando compreender os desafios humanos que habitam cada escola. De certo modo, o Magazine XYZ pratica aquilo que a Comunicação Não Violenta propõe: criar espaços onde diferentes vozes podem ser ouvidas com respeito, profundidade e sentido de comunidade.
Talvez por isso esta abordagem tenha vindo a despertar um interesse crescente em todo o país. A ação de formação «Introdução à Comunicação Não Violenta na Escola e na Gestão Escolar», acreditada pelo Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua, integra já os planos formativos de diversos Centros de Formação de Associação de Escolas (Aveiro, Arouca, Vale de Cambra e Oliveira de Azeméis, Gaia Sul, Braga), estando igualmente prevista por muitos outros para 2027/2028, em modalidades presencial e a distância. Este interesse não resulta de uma tendência passageira. Nasce da consciência, cada vez mais clara, de que a qualidade das aprendizagens depende, em grande medida, da qualidade das relações humanas que conseguimos construir dentro das escolas.
Mas foi apenas quando li integralmente o Magazine XYZ que percebi verdadeiramente a dimensão deste projeto editorial.
Confesso que a surpresa foi enorme.
Esperava encontrar uma publicação escolar de qualidade. Encontrei muito mais do que isso.
Encontrei uma verdadeira revista cultural.
Vivemos numa época em que muitas publicações institucionais se limitam a documentar acontecimentos: inaugurou-se um espaço, realizou-se uma atividade, entregaram-se prémios, visitou-se um museu. Tudo isso é importante. Mas comunicar não é apenas relatar o que aconteceu. Comunicar é também ajudar a compreender por que razão aquilo que aconteceu tem significado.
É precisamente aqui que este magazine se distingue.
| Colaboradores desta edição do Magazine XYZ |
Desde o editorial percebe-se que existe uma visão clara e uma direção editorial consistente. Nada parece improvisado. Os textos sucedem-se segundo uma lógica de pensamento, como se deambulássemos por um jardim, colhendo flores do pensamento. A publicação não é uma coleção de artigos independentes, mas uma narrativa construída em torno de uma ideia maior: a escola enquanto comunidade de pessoas, de cultura, de conhecimento e de humanidade.
Essa coerência é rara.
Mais rara ainda é a qualidade literária dos textos.
Ao longo das suas páginas encontramos ensaios, testemunhos e reflexões que poderiam ser publicados em revistas culturais ou pedagógicas de âmbito nacional. Não são textos administrativos nem relatórios de atividades. São textos escritos com tempo, com pensamento e com uma evidente preocupação estética. Há metáforas, ritmo, profundidade, emoção e uma permanente procura de sentido. Num tempo em que tantas vezes se escreve para consumir rapidamente, esta revista escolhe escrever para permanecer.
Também o cuidado gráfico merece uma palavra de reconhecimento.
A composição das páginas, a escolha tipográfica, a utilização equilibrada dos espaços em branco, a organização dos títulos e subtítulos, a paginação e a harmonia visual revelam um trabalho editorial de grande profissionalismo. Nada procura impressionar pelo excesso. Tudo está ao serviço da leitura. Essa discrição é, paradoxalmente, um dos maiores sinais de qualidade.
Outro aspeto que me impressionou foi a pluralidade de vozes.
Professores, direção, encarregados de educação, especialistas e colaboradores escrevem lado a lado, oferecendo diferentes perspetivas sobre os desafios da Educação. Essa diversidade não fragmenta a publicação. Pelo contrário. Enriquece-a, porque todos parecem escrever a partir de uma convicção comum: a de que educar é uma tarefa coletiva. É um todo, inteiro.
E talvez seja precisamente aqui que reside o maior mérito deste magazine.
A sua qualidade editorial não resulta apenas da competência gráfica ou da excelência dos textos.
Resulta da cultura organizacional que lhe dá origem.
As grandes publicações nunca são apenas o produto de um bom designer ou de um bom diretor editorial. São o espelho da instituição que as produz. Quando uma escola acredita na reflexão, na participação, no pensamento crítico e no diálogo, essa cultura acaba inevitavelmente por transparecer na forma como comunica.
O Magazine XYZ é, nesse sentido, muito mais do que uma revista. É a expressão escrita de um projeto educativo.
É a demonstração de que uma escola pode comunicar sem recorrer ao marketing vazio, à autopromoção ou à acumulação de fotografias. Pode comunicar através da inteligência, da cultura, da beleza e da profundidade.
Ao longo da leitura senti, várias vezes, que esta publicação faz exatamente aquilo que a Comunicação Não Violenta nos propõe diariamente: substituir o ruído pela escuta, a reação pela reflexão, a imposição pelo diálogo e a indiferença pelo encontro.
Talvez seja essa a razão pela qual me senti tão honrado por integrar este projeto.
Hoje compreendo que o convite que recebi não dizia apenas respeito à publicação de um artigo.
Era um convite para participar numa obra coletiva que acredita que a educação também se faz através da palavra. Que uma revista escolar pode ser um espaço de pensamento. Que comunicar pode ser uma forma de cuidar. E que uma escola que escreve assim é, muito provavelmente, uma escola que também aprende a escutar.
Por tudo isto, deixo os meus mais sinceros parabéns ao Agrupamento de Escolas de Canedo, à sua Direção, à equipa editorial e a todos os autores que contribuíram para esta magnífica edição do Magazine XYZ.
Num tempo em que tantas vezes lamentamos a superficialidade do discurso público, é profundamente reconfortante encontrar uma comunidade educativa que investe na qualidade, na cultura, na beleza e na inteligência.
No fim de contas, uma revista pode ser apenas papel impresso. Ou pode tornar-se um lugar onde uma escola revela a sua alma.
O Magazine XYZ pertence, sem dúvida, a esta segunda categoria.
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Autoria: José Paulo Santos

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