Os pensamentos que nos aprisionam: quando o nosso pior adversário mora dentro de nós
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| Os pensamentos que aprisionam e que libertam |
Há pessoas que passam uma vida inteira a lutar contra os outros, sem nunca suspeitarem de que a batalha mais difícil acontece no silêncio da própria mente.
Não é o chefe.
Não é o vizinho.
Não é o político.
Não é o cônjuge.
É aquela voz interior que, quase sem darmos conta, comenta tudo o que fazemos.
"Não és suficientemente bom."
"Vais falhar outra vez."
"Os outros conseguem; tu não."
"Se estás feliz, prepara-te: alguma coisa má vai acontecer."
"É demasiado bom para ser verdade."
A maioria destas frases não nasceu em nós. Foram aprendidas. Herdadas. Repetidas tantas vezes que deixámos de as ouvir como pensamentos. Passámos a vivê-las como se fossem a própria realidade.
Thomas d'Ansembourg chama-lhes sistemas de pensamento. Eu acrescentaria outra expressão: prisões invisíveis.
A autossabotagem raramente faz barulho
Quando pensamos em autossabotagem, imaginamos grandes decisões erradas ou comportamentos destrutivos.
Na verdade, ela começa muito antes.
Começa quando recusamos um elogio porque acreditamos que não o merecemos.
Quando adiamos um projeto por medo de não sermos perfeitos.
Quando permanecemos numa relação que nos faz sofrer porque confundimos sofrimento com amor.
Quando desistimos antes de tentar, para evitar a possibilidade do fracasso.
Quando dizemos "não sou capaz", embora nunca tenhamos experimentado.
A autossabotagem raramente grita.
Sussurra.
E é precisamente por falar tão baixo que acaba por comandar a nossa vida.
O cérebro não procura felicidade. Procura sobrevivência.
A neurociência ajuda-nos a compreender este fenómeno.
O cérebro humano evoluiu para detetar perigos. Durante milhares de anos, sobreviver dependia de identificar rapidamente ameaças.
Por isso, prestamos muito mais atenção ao que corre mal do que ao que corre bem.
Uma crítica pesa mais do que dez elogios.
Uma perda ocupa mais espaço do que muitas conquistas.
Uma notícia trágica prende-nos durante horas; um gesto de bondade passa quase despercebido.
Este enviesamento não significa que sejamos pessimistas por natureza.
Significa apenas que fomos programados para sobreviver.
Mas sobreviver não é o mesmo que viver.
A cultura do sofrimento
Há uma frase de Thomas d'Ansembourg que merece ser lida lentamente:
"Aprendemos muito mais a compensar o mal-estar do que a cultivar o bem-estar."
Talvez esta seja uma das descrições mais rigorosas da sociedade contemporânea.
Sentimo-nos vazios.
Compramos.
Sentimo-nos inseguros.
Comparamos.
Sentimo-nos sozinhos.
Consumimos distrações.
Sentimo-nos cansados.
Aceleramos ainda mais.
Poucos de nós aprendemos verdadeiramente a escutar o que sentimos.
Aprendemos, isso sim, a anestesiar.
A compensar.
A fugir.
A Comunicação Não Violenta começa dentro de nós
Quando Marshall Rosenberg falava de Comunicação Não Violenta, muitas pessoas imaginavam apenas uma forma diferente de falar com os outros.
Na realidade, a primeira violência é frequentemente interior.
É a forma como nos julgamos.
Como nos culpabilizamos.
Como transformamos erros em identidade.
Não dizemos:
"Hoje falhei."
Dizemos:
"Sou um falhado."
Não dizemos:
"Sinto medo."
Dizemos:
"Sou fraco."
Não dizemos:
"Preciso de ajuda."
Dizemos:
"Não devia precisar de ninguém."
A linguagem que utilizamos connosco próprios molda profundamente a qualidade da nossa vida.
Quem seríamos sem estas histórias?
Talvez a pergunta mais inquietante seja esta:
Quem seríamos se deixássemos de acreditar em todas as histórias que contamos sobre nós próprios?
E se não fôssemos "o rejeitado"?
"O incompetente"?
"A vítima"?
"O que nunca consegue"?
Talvez descobríssemos que essas identidades foram úteis para sobreviver, mas deixaram de servir para viver.
A personagem protegeu-nos durante algum tempo.
Agora, talvez esteja a impedir-nos de florescer.
Libertar não é apagar o passado
Libertar-nos destes sistemas de pensamento não significa esquecer aquilo que vivemos.
Nem negar as feridas.
Nem fingir que tudo está bem.
Significa apenas deixar de permitir que o passado continue a escrever o presente.
A Comunicação Não Violenta convida-nos precisamente a esse movimento.
Observar sem julgar.
Sentir sem reprimir.
Reconhecer as necessidades profundas que habitam cada emoção.
Escolher respostas em vez de repetir automatismos.
É um caminho exigente.
Mas profundamente libertador.
Talvez a verdadeira revolução seja esta
Vivemos numa época fascinada pela inteligência artificial.
Falamos muito sobre máquinas que aprendem.
Talvez esteja na altura de perguntarmos outra coisa:
Que pensamentos precisam de ser desaprendidos dentro de nós?
Porque nenhuma tecnologia conseguirá substituir esse trabalho.
Nenhum algoritmo poderá fazer por nós aquilo que só a consciência pode realizar.
A verdadeira transformação começa quando deixamos de acreditar que somos os nossos pensamentos.
Quando percebemos que podemos observá-los. Questioná-los.
E, finalmente, escolher quais queremos continuar a alimentar.
Talvez a liberdade não consista em pensar mais.
Talvez comece quando aprendemos a pensar de forma diferente.
Ou, quem sabe, quando descobrimos que nem todos os pensamentos merecem ser acreditados.
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Autoria: José Paulo Santos

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