Antes de desarmar o conflito da sala de aula, o professor precisa de desarmar o seu próprio

 

CNV - Professor desarma o conflito na sala de aula (José Paulo Santos)

"Há muito mais inteligência em dois corações que procuram compreender-se do que em duas inteligências que procuram ter razão." [Thomas d’Ansembourg]

Há uma imagem profundamente enraizada no imaginário coletivo: a do professor que domina naturalmente a sala de aula. Um profissional que entra, fala, explica, corrige e conduz os alunos com segurança, e sai. A realidade, porém, é muitas vezes bem diferente. Em milhares de escolas, diária e atualmente, professores experientes e professores em início de carreira enfrentam situações de conflito que os desgastam profundamente. Há palavras que ferem, silêncios que desestabilizam, provocações constantes, indisciplina, desafios à autoridade e uma sensação crescente de impotência que poucos ousam confessar.

Há um sofrimento silencioso na profissão docente de que raramente se fala. Por vezes, parece até um tabu. Muitos professores regressam a casa convencidos de que falharam. Perguntam-se se poderiam ter reagido de outra forma, se perderam o controlo demasiado cedo, se deveriam ter sido mais firmes ou mais compreensivos. Alguns acabam por viver num estado permanente de vigilância emocional, antecipando o próximo conflito antes mesmo de ele acontecer. Ensinar deixa de ser um espaço de encontro para se transformar numa sucessão de batalhas invisíveis.

Durante décadas perguntámos: Como controlamos o conflito?

Eu convido-vos a perguntar: Como compreendemos o conflito?

A diferença parece pequena. Na realidade, muda tudo.

O conflito não é uma anomalia da vida escolar. Não é um acidente que revela o fracasso da educação. O conflito é uma consequência inevitável da convivência humana. Sempre que colocamos vinte ou trinta pessoas diferentes dentro da mesma sala, durante várias horas por dia, surgirão necessidades diferentes, ritmos diferentes, formas diferentes de sentir e interpretar a realidade.

A escola habituou-se, contudo, a olhar sobretudo para o comportamento.

O aluno interrompe.

O aluno levanta-se.

O aluno responde.

O aluno desafia.

O aluno não trabalha.

O aluno perturba.

Seguindo Marshall Rosenberg, convido-vos a deslocar o olhar. O comportamento não é o problema. O comportamento é apenas a superfície visível. Debaixo dele existe quase sempre uma necessidade que ainda não encontrou uma linguagem mais saudável para se expressar.

Talvez aquele aluno procure reconhecimento.

Talvez procure pertença.

Talvez procure autonomia.

Talvez transporte uma dor que nunca conseguiu nomear.

Talvez simplesmente tenha aprendido, desde muito cedo, que a única maneira de ser visto consiste em perturbar. Nem em casa o ensinaram.

Esta perspetiva não desculpa o comportamento. Também não elimina a necessidade de estabelecer limites, mas humaniza profundamente a intervenção educativa.

O professor deixa de perguntar:

"Como faço este aluno calar-se?"

E começa a perguntar:

"O que estará este comportamento a tentar comunicar?"

Essa mudança altera completamente a qualidade da relação.

A neurociência confirma hoje aquilo que a Comunicação Não Violenta antecipou há décadas. Um cérebro ameaçado não aprende. Quando um aluno se sente atacado, ridicularizado ou humilhado, o seu organismo ativa os mecanismos primitivos de sobrevivência. A amígdala cerebral desencadeia respostas automáticas de luta, fuga ou bloqueio. Nesse momento, o córtex pré-frontal, responsável pela linguagem, pela memória de trabalho, pelo raciocínio e pela aprendizagem, reduz significativamente a sua atividade.

Por isso, insistir em explicações longas, sermões ou ameaças durante o pico do conflito raramente produz resultados. O cérebro do aluno deixou temporariamente de estar disponível para aprender. Mas existe uma verdade ainda mais desconfortável.

O mesmo acontece com o professor.

Também ele possui uma amígdala.

Também ele entra em estado de ameaça.

Também ele reage impulsivamente, quando sente que a sua autoridade está a ser posta em causa, quando toda a turma parece fugir ao controlo ou quando uma palavra de um aluno toca numa ferida antiga.

Esta é talvez a maior honestidade que a profissão docente exige. O professor não é apenas gestor das emoções dos alunos. É também gestor das suas próprias emoções.

Thomas d'Ansembourg estabelece uma distinção extraordinariamente importante entre reação e resposta.

A reação nasce do automatismo. É rápida. Defensiva. Impulsiva. Responde mais ao passado do que ao presente.

A resposta, pelo contrário, nasce da consciência. Entre o estímulo e a ação existe um pequeno espaço interior.

É nesse espaço que vive a liberdade.

É nesse espaço que o professor decide se será arrastado pela tempestade ou se conseguirá tornar-se porto seguro para os seus alunos.

Victor Frankl escreveu uma frase que permanece de uma atualidade impressionante:

"Entre o estímulo e a resposta existe um espaço. Nesse espaço reside a nossa liberdade e o nosso poder de escolher a resposta. E nessa resposta reside o nosso crescimento e a nossa liberdade."

Talvez nunca esta ideia tenha sido tão importante para a escola. Educar não é eliminar conflitos. Educar é ensinar a habitá-los.

Cada conflito oferece uma oportunidade rara para aprender competências que nenhum manual consegue ensinar: escutar antes de responder, reconhecer emoções, distinguir necessidades de estratégias, assumir responsabilidades, reparar relações e reconstruir confiança.

É precisamente aqui que a autoridade do professor ganha um significado completamente novo.

Durante muito tempo confundimos autoridade com poder. Hoje percebemos que a verdadeira autoridade nasce da credibilidade. E a credibilidade nasce da coerência.

Os alunos observam muito mais aquilo que o professor faz do que aquilo que diz. Aprendem a respeitar quem os respeita. Aprendem a escutar quem verdadeiramente os escuta. Aprendem a autorregular-se quando encontram diante de si um adulto emocionalmente regulado.

Stephen Porges, através da Teoria Polivagal, explica que o sistema nervoso humano procura incessantemente sinais de segurança. Um tom de voz tranquilo, um olhar acolhedor, uma postura corporal disponível ou um gesto de genuína curiosidade reduzem os estados de defesa e favorecem aquilo a que chama co-regulação. Em linguagem simples, os nossos sistemas nervosos influenciam-se mutuamente.

A Teoria Polivagal de Stephen Porgesna na Sala de Aula (José Paulo Santos)


Uma sala de aula não é apenas um espaço de transmissão de conhecimentos. É um ecossistema emocional. O estado interno do professor propaga-se. A ansiedade propaga-se. A irritação propaga-se. Mas também a serenidade, a confiança e a esperança se propagam.

Talvez seja por isso que Thomas d'Ansembourg insiste tanto na autoempatia. Antes de tentar compreender o aluno, o professor precisa de compreender aquilo que está a acontecer dentro de si.

Que emoção sinto neste momento? O que desencadeou esta reação? Que necessidade minha ficou ameaçada? Será necessidade de respeito? De reconhecimento? De eficácia? De tranquilidade?

Responder honestamente a estas perguntas, mergulhando profundamente na verdade,  não enfraquece a autoridade. Pelo contrário. Torna-a mais consciente.

Há professores que acreditam que mostrar vulnerabilidade significa perder autoridade. A experiência demonstra exatamente o contrário. Os alunos reconhecem facilmente a autenticidade.

Sabem distinguir um adulto que grita, porque perdeu o controlo de um adulto que estabelece limites porque acredita neles.

A firmeza não precisa de violência. A autoridade não precisa de humilhação. A disciplina não precisa de medo. Pelo contrário, a investigação mostra que o medo produz obediência momentânea, mas dificilmente produz aprendizagem duradoura ou desenvolvimento moral.

Aquilo que transforma verdadeiramente uma comunidade educativa é a qualidade das relações. É por isso que uma das frases mais luminosas que merece ficar gravada na memória de todos os educadores é: Primeiro a relação. Depois o resultado.

Que revolução pedagógica caberia nesta simples afirmação!

Durante anos perguntámos incessantemente:

Já terminaram a ficha?

Já copiaram o apontamento?

Já fizeram o trabalho?

Raramente perguntámos:

Como chegaram hoje à escola?

Como se sentem?

Há alguma coisa que vos esteja a impedir de aprender?

Não se trata de substituir o currículo pela emoção. Trata-se de compreender que não existe aprendizagem significativa sem segurança relacional.

António Damásio recorda-nos que não pensamos apesar das emoções; pensamos através delas. Emoção e razão não são inimigas. São parceiras inseparáveis da inteligência humana. Um professor que ignora a dimensão emocional da aprendizagem está, inevitavelmente, a ensinar apenas uma parte da pessoa.

Edgar Morin defendeu durante décadas que a educação do futuro deve ensinar a compreender o ser humano na sua complexidade. Não basta transmitir conhecimentos fragmentados. É necessário formar cidadãos capazes de se compreender a si próprios, compreender os outros e compreender a condição humana.

Talvez seja esta a grande missão da escola do século XXI. Não formar apenas alunos competentes, mas formar seres humanos capazes de transformar a agressividade em diálogo, a diferença em cooperação e o conflito numa oportunidade de crescimento.

O professor continuará a enfrentar dias difíceis. Continuará a encontrar alunos desafiantes, momentos de cansaço, decisões difíceis e conflitos inevitáveis. Nada disso desaparecerá.

Mas talvez possa levar consigo uma convicção nova, cada vez que escolhe escutar antes de julgar…

Cada vez que procura compreender antes de condenar...

Cada vez que separa a pessoa do comportamento...

Cada vez que privilegia a relação antes da imposição...

Está a ensinar muito mais do que a disciplina que consta do horário. Está a ensinar humanidade.

E talvez seja precisamente essa a aprendizagem que os seus alunos recordarão muitos anos depois de terem esquecido fórmulas, datas ou definições. No fim de contas, uma escola não se mede apenas pelos conhecimentos que transmite.

Mede-se, sobretudo, pela qualidade das relações que ajuda a construir.

E talvez a frase mais bela de Thomas d'Ansembourg resuma tudo aquilo que um professor pode desejar para a sua sala de aula:

"Há muito mais inteligência em dois corações que procuram compreender-se do que em duas inteligências que procuram ter razão."

Se a escola conseguir fazer desta frase uma prática quotidiana, terá dado um passo decisivo para formar não apenas melhores alunos, mas melhores seres humanos.

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Autoria: José Paulo Santos 

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