SE FIZERMOS O QUE SEMPRE FIZEMOS, TEREMOS O QUE SEMPRE TIVEMOS
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| O desperdício da água e a responsabilidade comum |
E vamos poupar nas torneiras, para eles fazerem mais piscinas e campos de golfe? Para promoverem culturas intensivas de abacate e eucalipto? Não deveríamos voltar à agricultura de sequeiro e travar mais licenciamentos de resorts?
A pergunta que recebi num comentário no Instagram, a propósito do meu artigo na Visão, "Alerta urgente: a água que ainda teimamos em desperdiçar", sobre o desperdício de água é legítima. E, mais do que legítima, é necessária. Não podemos pedir sacrifícios aos cidadãos enquanto ignoramos os enormes consumos de água associados a determinados modelos agrícolas, turísticos e urbanísticos. Há responsabilidades políticas, económicas e empresariais que têm de ser discutidas, reguladas e fiscalizadas.
Mas há uma segunda questão, talvez mais incómoda: será que a irresponsabilidade de alguns justifica a nossa?
É fácil dizer «eles». Eles licenciam, eles constroem, eles consomem, eles decidem. E, enquanto apontamos o dedo para cima, libertamo-nos daquilo que está ao nosso alcance. Esta é uma das formas mais eficazes de desresponsabilização: transformar a falha dos outros numa autorização para não mudarmos nada em nós.
A responsabilidade, porém, não é igual para todos. Quem decide sobre grandes empreendimentos, políticas agrícolas ou recursos hídricos tem incomparavelmente mais responsabilidade do que uma família que fecha uma torneira. Mas reconhecer essa desigualdade não significa concluir que a responsabilidade individual é inútil.
Precisamos das duas coisas: cidadãos que mudem comportamentos e instituições que mudem políticas. Poupar água em casa não substitui a regulação de culturas intensivas. Mas denunciar culturas intensivas também não transforma o desperdício doméstico em inevitabilidade.
A frase de autoria incerta, embora muitas vezes atribuída a Paul Watzlawick, psicólogo e psicanalista austríaco, resume uma verdade simples: «Se fizermos o que sempre fizemos, teremos o que sempre tivemos.»
Talvez seja precisamente isso que esteja em causa. Não apenas a água, mas a nossa capacidade de romper com a lógica do «por que hei-de ser eu, se os outros não são?».
Uma sociedade começa a mudar quando deixa de perguntar «quem é o culpado?» e começa a perguntar «qual é a responsabilidade de cada um e o que estamos, cada um de nós, dispostos a mudar?»
A água não pode ser uma batalha entre «eles» e «nós». É um bem comum. E aquilo que é comum exige responsabilidade comum, embora nunca em partes iguais.
Poupar água não chega, mas continuar a desperdiçá-la porque outros desperdiçam mais também não.
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AUTORIA: José Paulo Santos

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