Quando um livro nos encontra: A Alma do Mundo de Frédéric Lenoir
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| A Alma do Mundo de Frédéric Lenoir |
Há livros que procuramos. Outros, mais raros, parecem esperar por nós.
Durante uma viagem de cerca de 2900 quilómetros, entre Aveiro e o Sul de França, atravessando Burgos, Toulouse, Carcassonne, Albi, Narbonne e outros lugares da Occitânia, houve um momento em que a viagem deixou de ser apenas geográfica. Em Montolieu, essa pequena e extraordinária aldeia francesa conhecida como a aldeia das livrarias, um livro pareceu desejar pertencer-me.
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| Livraria La Manufacture em Montolieu, França |
Era L'Âme du Monde, de Frédéric Lenoir, com belíssimas ilustrações de Alexis Chabert, da Editora Éditions Retrouvées.
Talvez não pudesse ter sido encontrado noutro lugar. É um lugar simbólico.
Montolieu é, por si só, uma espécie de metáfora. Uma aldeia onde os livros ocupam casas, ruas, portas, estantes e silêncios. Um lugar onde procurar um livro é, de algum modo, procurar uma parte de nós. E foi ali, no meio de milhares de páginas que já tinham pertencido a outros leitores, que encontrei este conto filosófico de Lenoir.
Há encontros assim: não sabemos se somos nós que encontramos o livro ou se é o livro que encontra o momento certo para entrar na nossa vida.
Sete sábios e uma pergunta antiga
L'Âme du Monde, que acabo de terminar a leitura, constrói-se em torno de uma narrativa aparentemente simples e, ao mesmo tempo, profundamente simbólica.
Num mosteiro remoto, situado a cerca de 4000 metros de altitude e chamado Tulanka, sete sábios provenientes de diferentes tradições espirituais reúnem-se perante a iminência de uma grande crise planetária.
Há entre eles um rabino, um monge cristão, uma xamã, um mestre taoista e representantes de outras tradições espirituais. Não se trata, porém, de uma competição entre religiões. O que os une é precisamente a consciência de que, por detrás das diferenças culturais, rituais e teológicas, existe uma sabedoria humana fundamental que pode ser partilhada.
Os sete sábios recebem dois adolescentes, aos quais irão transmitir aquilo que consideram essencial para compreender a existência.
E é aqui que o romance de Lenoir se torna particularmente interessante, porque os sábios não lhes oferecem uma religião. Oferecem-lhes chaves.
Chaves para compreender o ser humano, a relação com os outros, o sofrimento, o desejo, a liberdade, a consciência, a compaixão e a responsabilidade.
No fundo, procuram responder a uma pergunta que talvez seja uma das mais antigas da humanidade:
como podemos viver juntos sem destruir aquilo que nos une?
O que tem isto a ver com Comunicação Não Violenta?
Talvez quase tudo.
A Comunicação Não Violenta nasceu de uma pergunta muito semelhante: como podemos relacionar-nos uns com os outros sem transformar a diferença em ameaça, a necessidade em exigência, a dor em violência ou o conflito em guerra?
Marshall Rosenberg construiu a CNV a partir de uma intuição profundamente humanista: por detrás das palavras, dos julgamentos e dos comportamentos existe uma pessoa com necessidades.
Quando conseguimos escutar essas necessidades, as nossas e as dos outros, começa a surgir uma possibilidade diferente de relação.
É precisamente esta passagem que me interessa em A Alma do Mundo: a passagem da separação para a interdependência.
Os sete sábios pertencem a mundos diferentes. Falam a partir de tradições diferentes. Trazem consigo histórias, símbolos e formas de compreender o transcendente que não são iguais.
Mas sentam-se juntos. E isso é uma das imagens mais poderosas do livro.
Não é necessário pensar da mesma maneira para podermos encontrar-nos.
Num mundo cada vez mais polarizado, esta ideia deveria ser quase revolucionária.
Vivemos tempos em que confundimos frequentemente identidade com verdade. Acreditamos que defender aquilo em que acreditamos exige destruir aquilo em que o outro acredita. Transformamos diferenças de opinião em diferenças de valor. E, lentamente, deixamos de ver pessoas para passarmos a ver categorias: os meus e os outros, os que sabem e os ignorantes, os bons e os maus, os certos e os errados.
A CNV convida-nos a fazer o movimento contrário.
Antes de responder, escutar.
Antes de julgar, procurar compreender.
Antes de acusar, perguntar:
Que necessidade humana poderá estar por detrás disto?
A sabedoria como território comum
Essa é a grande beleza do encontro imaginado por Lenoir.
Os sete sábios não precisam de apagar as suas diferenças para encontrar uma linguagem comum. Pelo contrário: é precisamente porque são diferentes que o diálogo se torna fecundo.
Uma tradição pode iluminar aquilo que outra não consegue ver. Uma cultura pode oferecer uma pergunta que outra nunca formulou. Uma experiência espiritual pode abrir uma janela inesperada sobre uma questão que julgávamos conhecer.
A verdadeira sabedoria reside em não possuir respostas. Assenta em aprender a permanecer suficientemente aberto para que a pergunta do outro possa transformar a nossa própria pergunta.
É aqui que A Alma do Mundo toca profundamente a Comunicação Não Violenta.
Porque comunicar de forma não violenta não significa falar docemente.
Não significa evitar conflitos.
Não significa concordar.
E muito menos significa ser passivo diante da injustiça.
Significa procurar preservar a humanidade da relação mesmo quando discordamos.
Significa conseguir dizer não sem transformar o outro num inimigo.
Significa conseguir ouvir não sem imediatamente o interpretar como rejeição.
Significa reconhecer que uma pessoa pode estar profundamente enganada e continuar a ser uma pessoa.
Talvez o mundo não precise de mais vencedores
O romance de Lenoir fala de uma crise planetária. E essa ideia parece particularmente atual.
As grandes crises contemporâneas não são apenas económicas, políticas ou ambientais. Existe uma crise relacional. Uma crise da escuta. Uma crise da capacidade de permanecermos diante do outro sem imediatamente o reduzirmos àquilo que pensamos dele.
Temos acesso a mais informação do que qualquer geração anterior e, paradoxalmente, parecemos cada vez menos capazes de compreender-nos.
Falamos muito. Escutamos pouco. Respondemos antes de compreender.
E, quando já não conseguimos escutar, começamos a gritar.
É por isso que a imagem daqueles sete sábios reunidos num mosteiro imaginário seja tão poderosa: homens e mulheres provenientes de universos diferentes sentados à mesma mesa, tentando descobrir aquilo que pode permanecer humano quando tudo o resto parece desmoronar.
Não procuram um vencedor. Procuram uma verdade suficientemente grande para caber entre todos.
E é isto que os livros fazem
Regressei de Montolieu com um livro. Mas trouxe comigo outra coisa.
A sensação de que algumas viagens acontecem em duas geografias simultâneas: aquela que percorremos no mapa e aquela que percorremos dentro de nós.
Os quase 2900 quilómetros atravessados entre Aveiro e o Sul de França levaram-me por estradas, cidades, paisagens, fronteiras e lugares de memória.
Mas, em Montolieu, uma pequena aldeia povoada de livros, encontrei uma espécie de paragem interior.
Talvez seja por isso que A Alma do Mundo me pareceu querer pertencer-me. Não apenas porque é um livro sobre filosofia e espiritualidade. Nem porque reúne sete tradições diferentes.
Mas porque fala de uma coisa que continua a ser profundamente necessária: a possibilidade de reconhecermos no outro aquilo que, apesar de todas as diferenças, também existe em nós.
A alma do mundo não é uma entidade distante, escondida num mosteiro a 4000 metros de altitude.
Está precisamente aqui.
No espaço invisível que nasce quando duas pessoas deixam, por um instante, de tentar vencer uma à outra e começam verdadeiramente a escutar-se.
E é aí que começa toda a comunicação verdadeiramente não violenta:
quando deixamos de perguntar “quem tem razão?” e começamos a perguntar “o que é que, em nós, precisa de ser compreendido?”
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Autoria: José Paulo Santos


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