Dia Internacional para a Tolerância: a Dignidade do Outro não Precisa da nossa Licença
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| Dia Internacional para a Tolerância - 16 de novembro |
Que a minha verdade se alargue ao escutar a tua
e no espaço que abrirmos entre nós
a vida encontre mais lugar para florescer. — José Paulo Santos
Há uma frase à espera de ser acabada: "Para mim tolerância é…". Está escrita num pequeno cartão amarelo. Por baixo, um espaço vazio convida ao pensamento. Cabe ali uma definição, uma inquietação, uma experiência. Cabe também a distância entre aquilo que gostamos de dizer sobre nós e a forma como tratamos quem nos contraria.
No Agrupamento de Escolas José Estêvão, no Clube Europeu da EB2 de São Bernardo, os alunos convidam a comunidade educativa a participar com opiniões numa iniciativa para celebrar o Dia Internacional para a Tolerância, assinalado a 16 de novembro. A data recorda um compromisso que a UNESCO associa ao respeito pela diversidade humana e ao reconhecimento dos direitos e das liberdades dos outros. O convite dos alunos traz esse compromisso para perto: para as nossas palavras, os nossos corredores, as relações em que diariamente se aprende a viver com alguém.
É um gesto que merece atenção. Os alunos abrem uma pergunta e dão aos adultos a oportunidade de pensar com eles. Durante um momento, a escola pode suspender a pressa de apresentar respostas e aceitar o desconforto fecundo de se interrogar.
A delicada distância entre tolerar e reconhecer
A palavra "tolerância" exige que a escutemos com cuidado. Na linguagem corrente, toleramos uma dor, um ruído, uma contrariedade. Quando usamos o mesmo verbo para falar de uma pessoa, corremos o risco de colocar a sua existência no lugar das coisas que suportamos com algum esforço. "Eu tolero-te" pode conter uma inesperada arrogância: a de quem imagina possuir autoridade para permitir ao outro que seja quem é.
A dignidade humana precede essa autorização. Ninguém deveria ter de agradecer o direito de existir com a sua língua, a sua origem, a sua crença ou a sua ausência de crença. Uma criança não chega à escola para provar que merece pertencer-lhe. Chega com esse direito.
É por isso que a reflexão sobre a tolerância precisa de alcançar o reconhecimento. Reconhecer alguém implica admitir que há uma vida inteira para além daquilo que conseguimos perceber num primeiro encontro. O sotaque que estranhamos transporta uma história. O silêncio que interpretamos como desinteresse pode esconder o esforço de compreender uma língua nova. A resposta que nos parece brusca pode exigir uma conversa antes de merecer uma conclusão.
Esse cuidado não nos obriga a adivinhar o que o outro sente. Obriga-nos a dar-lhe a possibilidade de o dizer.
A escola aprende-se na forma como nos tratamos
Uma escola ensina também através daquilo que permite que aconteça. Ensina quando interrompe uma humilhação, quando escuta uma queixa, quando pronuncia com cuidado um nome que ainda não conhece. Ensina, igualmente, quando desvia o olhar.
Pensemos num aluno que procura as palavras portuguesas para terminar uma frase. O tempo que lhe concedemos faz parte do acolhimento. Se completamos sempre a frase por ele, se nos impacientamos ou sorrimos do erro, podemos estar a tornar mais difícil a sua próxima tentativa. Há aprendizagens que dependem dessa segurança elementar: poder experimentar sem recear o ridículo.
O mesmo cuidado é necessário perante quem discorda. É relativamente fácil defender a tolerância entre pessoas que pensam como nós. O trabalho começa quando alguém questiona uma convicção a que estamos ligados, traz uma maneira diferente de viver ou nos obriga a reconhecer que o nosso ponto de vista tem limites.
Somos, por vezes, muito tolerantes até alguém ocupar o lugar onde costumamos sentar-nos. A pequena contrariedade tem o mérito de revelar aquilo que os grandes discursos conseguem esconder.
Por isso, o cartão amarelo também nos devolve uma pergunta íntima: como se manifesta a minha tolerância quando estou cansado, contrariado ou convencido de que tenho razão?
Escutar com firmeza e humanidade
A Comunicação Não Violenta pode ajudar-nos a permanecer nessa pergunta. Convida-nos a observar antes de julgar, a reconhecer o que sentimos e a procurar as necessidades presentes num conflito. Esse movimento exige disponibilidade para rever a primeira interpretação, sobretudo quando ela parece evidente.
Se um aluno interrompe repetidamente uma aula, descrever o que aconteceu permite abordar um comportamento concreto. Chamá-lo "mal-educado" transforma o episódio numa sentença sobre a pessoa. A diferença tem consequências: um comportamento pode ser discutido, responsabilizado e alterado; um rótulo tende a acompanhar quem o recebe, mesmo depois de ter mudado.
Também os adultos precisam de condições para fazer este trabalho. Um professor exausto, um assistente operacional sobrecarregado ou uma família que se sente desamparada necessitam de escuta e de apoio. Pedir serenidade sem cuidar das condições em que as pessoas vivem e trabalham pode tornar-se mais uma forma de lhes exigir silêncio.
E há limites que têm de ser claros. Perante o racismo, a intimidação ou a humilhação, proteger quem está a ser atingido é uma responsabilidade. Compreender o percurso de quem agride não apaga o dano nem dispensa consequências. Permite procurar uma resposta que interrompa a violência e abra a possibilidade de responsabilização, sem reproduzir a desumanização que pretendemos combater.
A firmeza ganha força quando consegue preservar a humanidade de todos os envolvidos.
Depois das palavras no cartão
Ao convidarem a comunidade educativa a completar "Para mim tolerância é…", os alunos do AEJE criam uma oportunidade de participação. O valor dessa iniciativa cresce quando as respostas encontram continuidade nas relações: quando se conversa sobre o que foi escrito, quando uma ideia nos incomoda o suficiente para a examinarmos, quando alguém reconhece numa frase uma mudança que precisa de fazer.
Vale a pena escutar também quem hesita em participar. Há pessoas habituadas a que a sua opinião tenha pouco lugar. Um convite só se torna plenamente acolhedor quando chega a quem não se sente, à partida, incluído nele.
O dia 16 de novembro passará. Ficarão as aulas, as reuniões, as diferenças de opinião e os conflitos por resolver. Ficará a oportunidade de pedir desculpa sem acrescentar uma justificação que anule o pedido. Ficará a possibilidade de perguntar, antes de concluir. E de rever uma certeza sem sentir que, por isso, perdemos o nosso lugar no mundo.
O cartão amarelo deixa espaço para muitas respostas. Uma parte da minha ficará por escrever, à espera do próximo encontro: quando alguém diante de mim precisar de tempo para acabar uma frase e eu tiver de decidir se lho dou.
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AUTORIA: José Paulo Santos

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