A Palavra foi de Agora mas a Ferida vinha de Longe: o problema de ser Mediador de si Mesmo

As Palavras são Punhais ou Orvalho apenas

As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparados, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade, in Até Amanhã

 

Há feridas que moram tão fundo em nós que basta uma palavra, dita num certo momento e num certo lugar, para as fazer regressar à superfície. Como escutar o outro quando, dentro de nós, uma dor antiga acaba de tomar a palavra?

Somos extraordinariamente sensatos nos conflitos dos outros, não é verdade? Reconhecemos o momento em que uma conversa se perdeu, percebemos quando uma resposta excedeu a intenção, encontramos uma pergunta que poderia abrir espaço ao entendimento. Diante de um pai e de um filho desavindos, de um casal que já só conversa através das suas acusações, de dois amigos separados por um mal-entendido, sabemos dizer: “Ouve primeiro. Procura perceber. Não respondas assim.” Temos, por vezes, um pequeno gabinete de mediação disponível para toda a humanidade. A dificuldade surge quando precisamos de atendimento ao domicílio.

Basta que aquele pai seja o nosso, que aquele filho nos enfrente, que a pessoa amada nos diga precisamente o que mais nos dói, para o gabinete encerrar por motivos de força maior. A lucidez, tão prestável na vida alheia, torna-se difícil de encontrar. Sabemos que deveríamos escutar, mas estamos ocupados a preparar a resposta. Queremos ser compreendidos com uma urgência que nos deixa pouca disponibilidade para compreender.

No poema “As Palavras”, do meu querido e saudoso amigo poeta Eugénio de Andrade, aproxima-se o cristal do punhal, o incêndio do orvalho. Essa vizinhança atravessa as nossas relações: a mesma boca que nos acolhe pode ferir-nos; a nossa, que tantas vezes ofereceu ternura, também sabe encontrar o lugar onde o outro é mais vulnerável. E, quando o encontra, nem sempre recua.

As palavras chegam “cheias de memória”, escreve o poeta. Também nós chegamos assim às discussões, mesmo quando acreditamos estar apenas a falar do que aconteceu há cinco minutos.

O lugar onde a palavra toca

Há feridas que não ocupam o centro da nossa consciência, mas continuam a influenciar a forma como recebemos os outros. A experiência de termos sido diminuídos, comparados, esquecidos ou deixados sem resposta pode permanecer em nós muito depois de se terem alterado as circunstâncias. A vida prossegue, trabalhamos, amamos, fazemos projetos, aconselhamos amigos. Até que uma frase encontra esse lugar sensível e o presente se torna, subitamente, maior do que o acontecimento que o desencadeou.

Pode ser um “não tenho paciência para ti”, dito num momento de cansaço. Uma brincadeira diante de amigos. Um “és igual ao teu pai”. Pode nem sequer ser uma palavra: um suspiro, um olhar desviado, a atenção que permanece no ecrã, enquanto tentamos dizer alguma coisa importante. O que para uma pessoa foi um gesto distraído pode ser recebido pela outra como a confirmação de uma suspeita dolorosa: “Não sou importante para ti.”

O momento e o lugar contam. Uma observação feita em privado não tem necessariamente o mesmo peso quando é feita à mesa, diante dos filhos ou de pessoas cuja consideração valorizamos. Uma recusa depois de um dia tranquilo pode ser recebida de maneira diferente da mesma recusa após semanas de distância. E há palavras que, vindas de um desconhecido, passaríamos por alto, mas que, na voz de quem amamos, parecem atingir o próprio chão onde assentamos a confiança.

A intimidade torna-nos acessíveis. Ao longo de uma relação, mostramos ao outro os nossos receios, as nossas vergonhas, aquilo que nos custa admitir. Essa abertura permite uma proximidade preciosa, mas deixa também lugares expostos. Quando uma confidência regressa sob a forma de argumento numa discussão, a ferida ultrapassa o conteúdo da frase: foi usada contra nós uma parte de nós que tínhamos confiado à relação.

Por isso, compreender a presença de dores antigas exige cuidado. Não podemos presumir que toda a reação intensa resulta do passado de quem reage. Há palavras efetivamente cruéis, desprezos repetidos, promessas quebradas, humilhações que acontecem agora. Dizer a alguém “isso são as tuas feridas” pode tornar-se uma maneira cómoda de evitar a responsabilidade pelo que acabámos de fazer. A história de quem escuta importa; a conduta de quem fala também.

Quando a dor começa a acusar

No instante em que nos sentimos atingidos, podemos perder a capacidade de distinguir o acontecimento da interpretação que fazemos dele. “Não me respondeste” transforma-se em “ignoras-me”; “discordaste de mim” torna-se “nunca me respeitaste”. A conversa deixa de se ocupar de uma situação concreta e passa a julgar a relação inteira.

É então que chegam o “sempre” e o “nunca”, essas duas palavras tão pequenas e tão disponíveis para apagar tudo o que não serve à acusação. 

Se o outro “nunca” esteve presente, deixam de contar as vezes em que esteve. Se “sempre” nos desprezou, qualquer gesto de cuidado passa a parecer falso. A dor organiza os factos à sua volta e oferece-nos uma certeza que, naquele momento, pode ser difícil de interrogar.

A acusação pode trazer consigo uma tentativa de tornar visível aquilo que não conseguimos dizer de outra maneira. Quem grita “não preciso de ti” pode estar a sofrer por precisar e não encontrar resposta. Quem afirma “acabou tudo” pode desejar que o outro reconheça, finalmente, a gravidade do que está a acontecer. Mas não devemos transformar estas possibilidades numa leitura automática das intenções alheias: um limite expresso precisa de ser levado a sério e ninguém tem a obrigação de adivinhar um pedido de proximidade por detrás de uma ameaça de rutura.

O grande drama é que a forma escolhida para mostrar a ferida pode produzir uma nova ferida. O outro ouve a acusação, sente-se injustiçado, defende-se e devolve o golpe. A discussão passa a ter dois sofrimentos que exigem reconhecimento e duas pessoas cada vez menos disponíveis para o oferecer. Já não se procura esclarecer o que aconteceu; procura-se provar quem magoou primeiro, quem magoou mais, quem tem maior legitimidade para estar magoado.

A cisão pode começar aí, muito antes de alguém sair de casa ou deixar de telefonar. Começa quando deixamos de admitir que existe, do outro lado, uma experiência que ainda não conhecemos por inteiro.

Quem escuta dentro de nós?

É relativamente fácil reconhecer este movimento quando o observamos de fora. Não estamos a defender o nosso lugar na vida de alguém, nem a tentar proteger uma parte íntima de nós que sentimos ameaçada. Podemos escutar versões diferentes sem que cada uma pareça retirar-nos dignidade. Quando estamos envolvidos, essa liberdade diminui.

Ser mediador de si mesmo começa por reconhecer essa dificuldade.

Não dispomos da distância de uma terceira pessoa e seria injusto exigir de nós uma serenidade permanente. Podemos, contudo, aprender a perceber o momento em que já não estamos a conseguir conversar: quando interrompemos tudo, repetimos a mesma acusação, atribuímos intenções sem perguntar ou sentimos vontade de dizer precisamente aquilo que sabemos que vai ferir.

Reconhecer esse momento permite interromper uma sequência que, de outro modo, parece inevitável. “Estou muito magoado e estou a começar a atacar-te. Preciso de parar um pouco, mas quero voltar a esta conversa.” Uma frase assim não resolve o conflito. Torna visível o que se passa e assume responsabilidade pelo que estamos prestes a fazer.

A pausa precisa de um regresso possível. Quando alguém se afasta sem explicação e deixa o outro indefinidamente à espera, o silêncio pode agravar a insegurança que já existia. Sempre que houver condições para isso, importa combinar quando retomar a conversa e cumprir esse compromisso. A pessoa que precisa de tempo tem direito a pedi-lo; a pessoa que fica à espera precisa de alguma clareza.

Entretanto, há um trabalho interior que ninguém pode fazer inteiramente por nós. O que aconteceu, concretamente? O que concluí a partir daí? O que me fez recordar? A que parte da situação estou a responder agora?

Estas perguntas não servem para pôr a nossa dor em julgamento. Servem para a compreender com maior precisão. Podemos descobrir que uma frase atual encontrou uma experiência antiga de rejeição. Podemos também perceber que aquilo que nos magoa é a repetição de um comportamento que já tínhamos pedido para mudar. Frequentemente, as duas coisas encontram-se: uma vulnerabilidade anterior e uma dificuldade presente que precisa de ser enfrentada.

Dar palavras à ferida

Há uma diferença decisiva entre dizer “és uma pessoa indiferente” e dizer “quando te contei uma coisa importante e mudaste de assunto, senti que não havia espaço para mim”. A segunda formulação exige exposição. Deixamos de estar apenas a avaliar o outro e mostramos algo que nos acontece. Isso pode custar mais do que acusar, porque a acusação nos permite manter alguma aparência de força.

Dar palavras à ferida implica aceitar essa vulnerabilidade sem a transformar numa exigência de submissão. Posso desejar atenção e pedi-la; não posso determinar que o outro esteja sempre disponível. Posso precisar de proximidade depois de uma discussão; a outra pessoa pode precisar de algum tempo antes de conseguir aproximar-se. O trabalho da relação passa por tornar essas necessidades conhecidas e encontrar modos de lhes responder que não obriguem um dos dois a desaparecer.

Também precisamos de distinguir um pedido concreto de uma prova impossível de amor. “Podemos conversar durante algum tempo, sem os telemóveis?” oferece uma possibilidade de resposta. “Se gostasses de mim, saberias o que fazer” deixa o outro perante um exame cujas perguntas desconhece e em que qualquer hesitação pode contar como reprovação.

A intimidade não nos concede o poder de adivinhar. 

Mesmo ao fim de muitos anos, continuamos a precisar de perguntar, explicar e corrigir interpretações. Conhecer alguém inclui reconhecer que essa pessoa não cabe inteiramente na ideia que já fazemos dela.

Por sua vez, escutar a dor do outro exige resistir à pressa de apresentar a nossa defesa. “Não era essa a minha intenção” pode ser verdadeiro e, ainda assim, chegar cedo de mais. Antes de explicar o que pretendíamos, podemos procurar perceber o que as nossas palavras produziram. Reconhecer um efeito doloroso não obriga a aceitar todas as acusações que nos sejam dirigidas; permite assumir a parte que nos pertence.

Compreender sem desculpar tudo

As nossas feridas ajudam a explicar algumas reações, mas não nos dispensam de responder por elas. Se humilhámos, ameaçámos ou usamos uma confidência para atingir alguém, há um dano que precisa de ser reconhecido. “Reagi assim porque me magoaste” deixa toda a responsabilidade do lado de quem recebeu a nossa agressão. Uma reparação começa com maior clareza: “O que aconteceu magoou-me. A forma como te tratei foi injusta e preciso de mudar isso.”

Essa mudança torna-se credível nos gestos seguintes. Uma desculpa repetida, sem alteração de comportamento, acaba por perder a capacidade de devolver segurança à relação. É preciso reconhecer os sinais de escalada mais cedo, cumprir as pausas combinadas, abandonar certas formas de ataque e aceitar ajuda quando os recursos de ambos já não chegam.

Nem toda a relação oferece condições para este trabalho conjunto. Há situações em que uma pessoa procura compreender e a outra usa essa disponibilidade para continuar a diminuir, controlar ou intimidar. Nesses casos, pedir ainda mais paciência a quem sofre aprofunda a desigualdade. 

A mediação de nós mesmos inclui reconhecer os nossos limites e procurar apoio; não nos obriga a manter uma conversa que nos retira segurança ou dignidade.

Também não conseguimos reconciliar duas pessoas apenas pela qualidade da nossa linguagem. Podemos cuidar da nossa participação, formular um pedido honesto, reconhecer um erro e abrir uma possibilidade. A resposta do outro continua a pertencer-lhe. Aceitar este limite é doloroso, sobretudo quando amamos, mas impede-nos de confundir responsabilidade com a obrigação de salvar tudo sozinhos.

Todos podemos contribuir para aproximar pessoas num conflito quotidiano, embora isso não substitua a preparação de um mediador profissional. Quando somos parte da contenda, recorrer a alguém de fora pode ser precisamente a decisão mais lúcida. Há conversas em que precisamos que outra pessoa ajude a preservar o espaço de escuta que já não conseguimos sustentar.

No poema, Eugénio de Andrade pergunta: “Quem as escuta?” A pergunta acompanha-nos para dentro das relações, onde tanto desejamos que as nossas palavras sejam finalmente recebidas. Mas acompanha-nos também para dentro de nós: 

quem escuta esta dor antes dela se tornar acusação? Quem reconhece o que está ferido sem lhe entregar o comando de tudo o que vamos dizer?

Há momentos em que conseguimos perceber que a palavra prestes a sair da nossa boca pertence, em parte, a uma dor muito anterior àquela conversa. Podemos então detê-la e procurar uma frase mais próxima do que nos acontece: “Isto tocou num lugar muito fundo em mim. Preciso de conseguir explicar-te.”

A conversa continua a ser difícil. O outro pode não saber responder de imediato. Porém, a ferida encontrou palavras que permitem conhecê-la, em vez de obrigarem alguém a defender-se dela.

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AUTORIA: José Paulo Santos 

 

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