A RAIVA: aquilo que sentimos antes de escolher aquilo que fazemos

 

A Raiva na Comunicação Não Violenta

Quando a emoção toma conta de nós

Há emoções que chegam devagar, quase sem ruído, e há outras que parecem entrar em nós como uma porta violentamente aberta pelo vento. A isto chamamos Raiva. Pode nascer de uma palavra, de uma injustiça, de uma desilusão, de uma humilhação, de uma expectativa frustrada ou da sensação de não sermos vistos, ouvidos ou respeitados. Em poucos segundos, aquilo que era apenas um acontecimento passa a ocupar todo o nosso campo de atenção. O corpo aquece, a respiração altera-se, os músculos contraem-se, a voz pode subir e a nossa capacidade de observar a realidade com distância começa a diminuir. A raiva não é, por isso, apenas uma ideia que temos acerca de alguma coisa: é uma experiência corporal, emocional e mental que nos atravessa e que, quando não é compreendida, pode transformar-se numa força destrutiva.

Há, porém, uma distinção essencial que precisa de ser feita desde o início: sentir raiva não é o mesmo que agir com violência. A emoção acontece; a ação é uma escolha. Podemos sentir uma raiva imensa e não insultar ninguém, não agredir ninguém, não destruir nada e não transformar a pessoa que temos diante de nós num inimigo. Também podemos aparentemente não sentir raiva e agir de forma cruel através da humilhação, da ironia, da manipulação, da indiferença ou do silêncio punitivo. A Comunicação Não Violenta devolve-nos precisamente esta distinção fundamental: não somos responsáveis por impedir que uma emoção apareça, mas somos responsáveis pela relação que estabelecemos com ela e pelo modo como escolhemos expressá-la.

A emoção é um acontecimento interior. A violência começa quando entregamos a esse acontecimento o poder de decidir por nós.

A raiva nasce apenas do que aconteceu?

Aristóteles compreendeu há mais de dois mil anos a extraordinária complexidade da cólera. Na Retórica, ao analisar a raiva, procura perceber as circunstâncias em que ela surge, aquilo que a desencadeia e a forma como a perceção de uma ofensa ou de um desprezo pode produzir o desejo de retaliação. Esta análise continua profundamente atual, porque nos obriga a perceber que a raiva não depende exclusivamente do acontecimento objetivo; depende também da interpretação que fazemos dele. Uma pessoa pode não responder à nossa mensagem e nós interpretarmos esse silêncio como desprezo; alguém pode discordar de nós e sentirmos essa discordância como uma desvalorização; uma crítica pode ser entendida como uma humilhação. Entre aquilo que aconteceu e aquilo que sentimos existe frequentemente uma interpretação que organiza a experiência e lhe atribui significado.

É nesta diferença entre acontecimento e interpretação que muitas das nossas explosões emocionais começam. Sabemos que alguém não respondeu; não sabemos necessariamente porquê. Sabemos que alguém nos interrompeu; não sabemos necessariamente se o fez para nos desrespeitar. Sabemos que uma pessoa não cumpriu determinado compromisso; não sabemos automaticamente se isso significa falta de consideração. Quando a raiva cresce, porém, a mente tende a preencher rapidamente os espaços vazios. A dúvida desaparece e a interpretação apresenta-se como facto. É então que o outro deixa de ser uma pessoa complexa, com as suas próprias circunstâncias, limitações e fragilidades, e passa a ocupar o papel de culpado. Quando alguém se transforma, dentro da nossa narrativa interior, no culpado absoluto, a violência verbal ou emocional encontra terreno fértil para se instalar.

Esta é uma das armadilhas mais perigosas da raiva: ela simplifica o mundo precisamente quando mais precisamos de o compreender. Divide-o entre nós e os outros, entre quem tem razão e quem está errado, entre quem feriu e quem foi ferido. A nuance desaparece. A humanidade do outro diminui. E quanto mais absoluta se torna a nossa certeza, menor se torna a nossa disponibilidade para escutar.

O que disseram os filósofos sobre a cólera

Séneca levou esta questão ainda mais longe ao dedicar um tratado inteiro à cólera. A tradição estoica viu na raiva uma paixão particularmente perigosa, porque ela pode comprometer o discernimento e empurrar-nos para ações das quais nos arrependemos quando o estado emocional se desfaz. O problema, para Séneca, não está apenas na intensidade da emoção, mas no poder que lhe concedemos quando permitimos que ela determine aquilo que fazemos. Uma emoção intensa não nos obriga a uma resposta intensa. Entre sentir e agir existe um espaço, por vezes minúsculo, onde podemos recuperar a nossa liberdade. Esse espaço precisa de ser treinado, porque ninguém se torna emocionalmente livre apenas por desejar sê-lo.

Michel de Montaigne oferece-nos uma perspetiva mais íntima e mais humana. Quando escreve sobre a cólera, não fala a partir da superioridade moral de quem já dominou as próprias paixões; fala como alguém que conhece por dentro a dificuldade de não ser arrastado por elas. A sua reflexão vale precisamente por isso. A sabedoria não consiste em deixar de sentir aquilo que é humano, mas em conhecermo-nos suficientemente bem para não sermos governados pelas nossas próprias tempestades. A maturidade não elimina a raiva. A maturidade aumenta a distância entre a sua chegada e a nossa resposta.

Bento (ou Baruch) de Espinosa desloca a questão para outro território. Em vez de perguntar se uma emoção é moralmente boa ou má, procura compreender as suas causas e os mecanismos pelos quais os afetos diminuem ou aumentam a nossa potência de agir. Esta mudança é extraordinariamente fecunda para a Comunicação Não Violenta, porque nos convida a substituir o julgamento pela compreensão. Quando sentimos raiva, podemos condenar-nos: «eu não devia sentir isto» ou podemos procurar perceber o que está realmente a acontecer: o que aconteceu, o que interpretei, o que senti, de que preciso e que possibilidade de ação existe agora? Compreender uma emoção não significa justificar qualquer comportamento que ela possa desencadear; significa retirar-lhe o caráter misterioso e reconhecer os caminhos pelos quais ela nos conduz.

Compreender a raiva não é desculpar a violência. É impedir que a violência seja a única linguagem que a raiva conhece.

Reprimir não é transformar

É precisamente aqui que devemos abandonar uma ideia muito difundida: a de que ultrapassar a raiva significa eliminá-la. Não significa. Reprimir uma emoção não é transformá-la. Uma pessoa pode engolir a raiva, sorrir, dizer «não faz mal» e continuar durante meses a acumular ressentimento. Pode não levantar a voz e, contudo, tornar-se fria, sarcástica, distante ou passivo-agressiva. Pode aparentemente perdoar sem ter compreendido aquilo que aconteceu e transportar consigo uma história interior de injustiça que regressará mais tarde, por vezes diante de alguém que nada teve que ver com a ferida original. Aquilo que não conseguimos reconhecer e expressar de maneira consciente encontra frequentemente outras formas de aparecer.

Também por isso a cultura da contenção permanente pode ser enganadora. Há pessoas que aprenderam a não gritar, mas nunca aprenderam a falar daquilo que as magoa. Aprenderam a controlar a aparência da emoção, não a compreender a emoção. E existe uma diferença profunda entre autocontrolo e autorrepressão. O primeiro aumenta a liberdade; a segunda apenas adia o conflito.

A verdadeira transformação começa quando conseguimos olhar para a raiva sem vergonha e sem fascínio. Não precisamos de a glorificar, mas também não precisamos de a demonizar. Precisamos de a escutar.

Da raiva ao ressentimento, do ressentimento ao ódio

A história humana mostra-nos que a raiva também pode ultrapassar largamente a dimensão individual. O historiador Frédéric Chauvaud, ao estudar a história do ódio entre 1830 e 1930, mostra como esta paixão pode tornar-se uma força social e política, alimentando perseguições, violências e processos de desumanização. O ódio não nasce já constituído. Pode alimentar-se de pequenas narrativas repetidas, de ressentimentos acumulados, de identidades construídas em oposição a outras identidades e da transformação sistemática do outro numa ameaça.

É nesse momento que a emoção deixa de ser apenas uma experiência individual e começa a produzir uma visão do mundo. O outro deixa de ter rosto, história e complexidade. Passa a ser categoria, rótulo, inimigo. A desumanização é uma das consequências mais graves desse processo, porque permite que pessoas comuns pratiquem atos que, perante um ser humano concreto, talvez nunca aceitassem praticar.

A raiva individual merece, por isso, atenção também como fenómeno ético e social. A forma como lidamos com as nossas próprias emoções participa, ainda que modestamente, da forma como construímos relações, famílias, escolas, instituições e sociedades.

A raiva também pode dizer-nos alguma coisa

É por isso que aprender a lidar com a nossa própria raiva possui uma dimensão profundamente ética. Não se trata apenas de termos uma vida interior mais tranquila. Trata-se também de impedir que a nossa dor se converta em sofrimento para os outros. Uma pessoa ferida pode ferir. Uma pessoa humilhada pode humilhar. Uma pessoa que se sente impotente pode procurar alguém sobre quem exercer poder. Reconhecer este mecanismo não significa justificar nenhuma dessas condutas; significa compreender que a violência frequentemente se alimenta de emoções que não foram reconhecidas, elaboradas ou verbalizadas de outra maneira.

A raiva pode revelar uma necessidade que ignorámos durante demasiado tempo. Pode mostrar um limite que nunca tivemos coragem de estabelecer. Pode denunciar uma ferida antiga que o presente apenas reabriu. Pode mostrar-nos que estamos cansados, que nos sentimos desconsiderados, que precisamos de segurança, de respeito, de reconhecimento, de autonomia ou de justiça. Em determinadas situações, pode mesmo dizer-nos que alguma coisa concreta na nossa vida precisa de mudar.

Nesse sentido, a raiva pode ser um alarme. Mas um alarme não nos diz quem devemos atacar. Diz-nos que devemos prestar atenção.

O primeiro passo não é falar. É parar.

A Comunicação Não Violenta aponta-nos, neste momento, um caminho muito concreto. Quando estamos zangados, o primeiro movimento não precisa de ser falar. Precisa de ser parar. Não responder imediatamente à mensagem. Não telefonar naquele instante. Não publicar aquilo que acabámos de escrever. Não transformar o impulso numa sentença definitiva sobre alguém. Precisamos primeiro de recuperar a capacidade de observar.

O que aconteceu efetivamente? O que estou a interpretar? Que emoção está presente? Que necessidade minha foi tocada ou não atendida? O que gostaria de pedir, proteger ou transformar? Estas perguntas não são uma fórmula mágica, mas criam uma distância suficiente para que a emoção deixe de ser uma ordem e passe a ser uma informação.

Este intervalo é decisivo. Quando estamos dominados pela raiva, queremos frequentemente resolver tudo naquele instante. Queremos que o outro reconheça imediatamente a sua culpa, peça desculpa, compreenda a nossa dor e repare aquilo que aconteceu. A urgência emocional apresenta-se como urgência objetiva. Mas nem tudo o que exige a nossa atenção exige uma resposta imediata.

Há conversas que precisam de acontecer depois. Há palavras que precisam de esperar. Há feridas que precisam de silêncio antes de encontrarem linguagem.

Falar sem transformar a dor em arma

Isso não significa falar suavemente quando, na verdade, estamos furiosos. Significa falar com verdade sem transformar a nossa verdade numa condenação do outro. «És egoísta» fecha uma porta; «senti-me desconsiderado, porque precisava de maior atenção ao que tínhamos combinado» abre uma possibilidade de diálogo. «Tu nunca me ouves» transforma uma experiência numa acusação absoluta; «senti-me frustrado, porque precisava de sentir que havia espaço para aquilo que eu estava a tentar dizer» permite que o outro compreenda o que aconteceu dentro de nós.

A diferença não está apenas nas palavras. Está na consciência que existe antes delas.

A Comunicação Não Violenta, entendida desta maneira, não é um conjunto de expressões delicadas para substituir palavras agressivas. É uma mudança na própria maneira de olhar. Em vez de começarmos pelo julgamento do outro, começamos pela observação. Em vez de presumirmos intenções, distinguimos factos e interpretações. Em vez de escondermos a emoção, reconhecemo-la. Em vez de exigirmos, procuramos compreender a necessidade e formular um pedido.

É aí que a linguagem deixa de ser uma arma e passa a ser uma ponte.

Limites também são uma forma de não violência

Há outra aprendizagem essencial: podemos estabelecer limites sem odiar. Podemos dizer não sem humilhar. Podemos afastar-nos de uma relação sem desejar destruir a pessoa que dela faz parte. Podemos denunciar uma injustiça sem transformar todos os seres humanos que pensamos estar associados a ela num único bloco de culpados. Podemos discordar profundamente e continuar a reconhecer a humanidade de quem discorda de nós.

A não violência não é ausência de firmeza. É a recusa de transformar a firmeza em desumanização.

Esta distinção é particularmente importante, porque, por vezes, confundimos bondade com permissividade. Pensamos que não responder com violência significa aceitar tudo, tolerar tudo ou permanecer em relações que nos fazem mal. Não significa. Colocar limites claros pode ser uma expressão de respeito por nós próprios e pelos outros. Dizer «isto não aceito» pode ser muito mais não violento do que permanecer numa relação em que o ressentimento cresce silenciosamente até explodir.

O que fazer quando a raiva chega?

Há um exercício simples e exigente: quando a raiva surgir, não perguntar imediatamente «quem tem culpa?», mas «o que está a acontecer em mim?». A pergunta desloca o centro da experiência. Obriga-nos a observar o corpo, a nomear a emoção, a identificar os pensamentos que a acompanham e a reconhecer a necessidade que está por baixo dela.

Podemos perguntar: onde sinto esta raiva no corpo? O que aconteceu concretamente? Que história estou a contar a mim próprio sobre esse acontecimento? O que interpretei? O que estou a tentar proteger? O que preciso? O que gostaria de pedir? E, sobretudo, que ação me aproxima da pessoa que quero ser?

Esta última pergunta é decisiva. Nem sempre podemos escolher o que o outro fez. Nem sempre podemos corrigir o passado. Nem sempre conseguimos obter do outro o pedido de desculpas que desejávamos. Mas continuamos a poder escolher quem seremos diante daquilo que aconteceu.

A liberdade começa depois da emoção

Ultrapassar a raiva não é aprender a nunca ficar zangado. É aprender a atravessá-la sem destruir aquilo que amamos, aquilo que construímos ou aquilo que ainda poderíamos reparar. É permanecer suficientemente próximo da nossa emoção para a escutar e suficientemente distante dela para não lhe obedecer cegamente. É transformar a reação em reflexão, o impulso em escolha e a acusação numa possibilidade de encontro.

A raiva pode dizer-nos que alguma coisa importa. Pode indicar uma injustiça, uma necessidade, uma ferida ou um limite. O nosso trabalho não consiste em silenciá-la, mas em perguntar o que ela veio revelar. Depois disso, cabe-nos decidir o que fazer com essa revelação.

Não escolhemos sempre aquilo que sentimos no primeiro instante. Escolhemos, porém, aquilo que fazemos depois de o sentir.

A raiva pode bater à porta sem pedir licença. A nossa liberdade começa quando decidimos se lhe entregamos as chaves de casa.

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AUTORIA: José Paulo Santos


 

 

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